A quem confiarei meu voto no próximo domingo?
Não é de hoje
que a relação entre religião e política vem ocupando a reflexão dos cientistas
sociais. No passado, essa relação se expressava em termos institucionais,
mediante a declaração de um estado confessional, assentada na constituição, ou
através de relações oficiais entre as autoridades do Estado e os legítimos
representantes de uma religião ou Igreja. Em geral, era uma relação tranquila,
embora não respeitasse as minorias religiosas.
A novidade
recente, particularmente no Brasil, é uma espécie de captura da religião pelos
interesses políticos e mercadológicos, e a entrada interesseira de várias
Igrejas nas disputas políticas e no campo das atividades comerciais e
financeiras. A partir da década de 1980, a pastoral social ensinou que “tudo é
político” sem esquecer que “a política não é tudo”. Hoje se diz ou se pressupõe
que “tudo é negócio”, inclusive a política e a religião.
Esta captura da
religião e da política pelos interesses econômicos, no horizonte de uma
ideologia liberal, conservadora e autoritária, acaba gerando desvios e
confusões como os que estamos vivendo nas últimas semanas. Ao invés de discutir
projetos de educação, de convivência e de desenvolvimento econômico e político,
o povo brasileiro vê-se enredado em discussões de temas morais e religiosos de
reduzida importância na vida da nação.
O que devemos
escolher no próximo domingo não é a padroeira do Brasil, ou se é oportuno ou
não consagrar o Brasil a Jesus Cristo. Escolheremos pessoas e partidos que
ajudarão ou impedirão o desenvolvimento nacional, a autonomia das organizações
civis e populares e a integração soberana do Brasil no concerto das nações. Sem
menosprezar nenhum movimento político, nisso os dois agrupamentos majoritários
seguem direções opostas.
Diversamente de
algumas Igrejas, a Igreja católica não impõe nem indica aos seus fiéis partidos
ou candidatos, nem pretende assegurar vantagens institucionais nos parlamentos
e governos. Ela oferece critérios para que os fiéis decidam e votem: a busca do
bem comum; a defesa dos direitos humanos, da democracia e da soberania
nacional; o cuidado da casa comum; a primazia incondicional dos pobres e
vulneráveis e a dignidade da vida de todos.
Há quem veja
nestes critérios alinhamento com partidos, candidatos e movimentos de esquerda,
e isso seria inaceitável para um cristão católico. Mas eu pergunto: é aceitável
que um católico escolha, por amizade, conveniência ou descaso, candidatos e
partidos que pleiteiam unicamente interesses privados, combatam os direitos
humanos, relativizem a democracia e a soberania do país, promovam ou tolerem a
destruição do meio ambiente, submetam tudo aos interesses dos ricos e
relativizem a dignidade inviolável do ser humano?
Dom Itacir Brassiani, MSF - Bispo de Santa Cruz do Sul (RS)

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