Desenvolvimento
integral
Dom Geraldo dos
Reis Maia - Bispo de Araçuaí (MG)
O termo
“desenvolvimento integral” foi amplamente trabalhado pelo Papa Paulo VI em sua
Carta encíclica Populorum Progressio, sobre o desenvolvimento dos povos,
publicada em 26 de março de 1967, na esteira das preocupações sociais já
apresentadas por seus predecessores Leão XIII, Pio XI, Pio XII e João XXIII.
Assim, Paulo VI iniciou sua Encíclica:
“O
desenvolvimento dos povos, especialmente daqueles que se esforçam por afastar a
fome, a miséria, as doenças endêmicas, a ignorância; que procuram uma
participação mais ampla nos frutos da civilização, uma valorização mais ativa
das suas qualidades humanas; que se orientam com decisão para o seu pleno
desenvolvimento, é seguido com atenção pela Igreja” (PP, 1).
Para justificar
que a missão da Igreja abrange também as questões socioeconômicas, Paulo VI
declarou: “Depois do Concílio Ecumênico Vaticano II, uma renovada
conscientização das exigências da mensagem evangélica traz à Igreja a obrigação
de se pôr ao serviço dos homens, para os ajudar a aprofundarem todas as
dimensões de tão grave problema e para os convencer da urgência de uma ação
solidária neste virar decisivo da história da humanidade” (PP, 1).
Após apresentar
as principais aspirações do ser humano, o texto analisa a realidade da
colonização e do colonialismo, constatando um desequilíbrio crescente. Em
contrapartida, percebe-se uma tomada de consciência cada vez maior
dessa realidade. Isso gera “o choque entre as civilizações tradicionais e as
novidades da civilização industrial”, que acaba por quebrar “as estruturas que
não se adaptam às novas condições” (PP, 10).
O Papa apresenta
a visão cristã do desenvolvimento, que “não se reduz a um simples crescimento
econômico. Para ser autêntico, deve ser integral, quer dizer, promover todos os
homens e o homem todo” (PP, 14). Um pouco mais à frente, Paulo VI explica melhor
esse conceito: “O desenvolvimento integral do homem não pode realizar-se sem o
desenvolvimento solidário da humanidade (…). Por isso, sugerimos a busca de
meios de organização e de cooperação, concretos e práticos, para pôr em comum
os recursos disponíveis e realizar, assim, uma verdadeira comunhão entre todas
as nações” (PP, 43).
Recentemente, o
Papa Leão XIV retomou o conceito de desenvolvimento integral, inserindo-o no
debate socioambiental diante dos desafios que enfrentamos, e nos advertiu: “a
qualidade do desenvolvimento mede-se pela sua capacidade de manter juntas, sem
as separar, a justiça para com as pessoas e a salvaguarda da Casa comum,
favorecendo condições de vida dignas, acesso aos bens essenciais, relações
sociais justas, cuidado da criação e atenção às gerações futuras” (MH,
84).
Há um sério
risco de se gerar um pretenso desenvolvimento para uma pequena classe de
privilegiados, deixando cair apenas migalhas para a enorme multidão de
explorados e descartados da sociedade. Continua o Papa: “Daí se conclui que não
é verdadeiro progresso o que aumenta o bem-estar de alguns degradando os
ecossistemas, descarregando os custos nas comunidades mais vulneráveis ou
prejudicando as condições de vida de quem virá depois de nós” (MH, 84).
Como Igreja,
desejamos que a história da humanidade seja uma história de prosperidade,
justiça, dignidade humana, compromisso socioambiental, concórdia e paz.
Queremos que todos os seres humanos trilhem o caminho do desenvolvimento
integral. Com os Titãs, cantamos e parafraseamos: “a gente não quer só comida,
quer comida, diversão e arte” (Comida).
A gente não quer
só emprego; a gente quer emprego, respeito e justiça social.
A gente não quer
só um ar de desenvolvimento; a gente quer ar sem cheiro de explosivos e de
contaminação de grandes empresas;
A gente não quer
só propaganda enganosa e migalhas; a gente quer acesso ao direito à saúde
pública e tratamento adequado para nossas crianças e pessoas atingidas pelas
explorações.
A gente não quer
só emprego; a gente quer emprego e desenvolvimento sustentável para todos,
especialmente para as famílias e comunidades impactadas por aqueles que dizem
trazer o desenvolvimento para nossas cidades.
A gente não quer
moradia só para alguns privilegiados; a gente quer que todos tenham direito à
moradia digna, sem rachaduras; com suas mesas e chão sem poeira geradas pelas
mineradoras e queimadas da monocultura.
A gente não quer
apenas retirada de nossas riquezas, deixando buracos revirados; a gente quer
respeito ao meio ambiente, aos territórios de nossas comunidades tradicionais,
aos nossos rios, matas e animais.
Continuando a
citar Titãs: “A gente não quer só dinheiro. A gente quer dinheiro e felicidade.
A gente não quer só dinheiro. A gente quer inteiro e não pela metade”
(Comida).
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