Leituras e reflexão
Leitura do livro do profeta Isaías
Assim diz o Senhor: “Ó vós todos que estais com sede, vinde às águas; vós que não tendes dinheiro, apressai-vos, vinde e comei, vinde comprar sem dinheiro, tomar vinho e leite sem nenhuma paga. Por que gastar dinheiro com outra coisa que não o pão, desperdiçar o salário senão com satisfação completa? Ouvi-me com atenção e alimentai-vos bem, para deleite e revigoramento do vosso corpo. Inclinai vosso ouvido e vinde a mim, ouvi e tereis vida; farei convosco um pacto eterno, manterei fielmente as graças concedidas a Davi”.
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Responsório: Sl 144(145)
- Vós abris a vossa mão e saciais os vossos filhos.
- Vós abris a vossa mão e saciais os vossos filhos.
1. Misericórdia e piedade é o Senhor, / ele é amor, é paciência, é compaixão. / O Senhor é muito bom para com todos, / sua ternura abraça toda criatura.
2. Todos os olhos, ó Senhor, em vós esperam / e vós lhes dais no tempo certo o alimento; / vós abris a vossa mão prodigamente / e saciais todo ser vivo com fartura.
3. É justo o Senhor em seus caminhos, / é santo em toda obra que ele faz. / Ele está perto da pessoa que o invoca, / de todo aquele que o invoca lealmente.
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2ª Leitura: Rm 8,35.37-39
Leitura da Carta de São Paulo aos Romanos
Irmãos, quem nos separará do amor de Cristo? Tribulação? Angústia? Perseguição? Fome? Nudez? Perigo? Espada? Em tudo isso, somos mais que vencedores, graças àquele que nos amou! Tenho a certeza de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os poderes celestiais, nem o presente, nem o futuro, nem as forças cósmicas, nem a altura, nem a profundeza, nem outra criatura qualquer será capaz de nos separar do amor de Deus por nós, manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor.
Naquele tempo, quando soube da morte de João Batista, Jesus partiu e foi de barco para um lugar deserto e afastado. Mas, quando as multidões souberam disso, saíram das cidades e o seguiram a pé. Ao sair do barco, Jesus viu uma grande multidão. Encheu-se de compaixão por eles e curou os que estavam doentes. Ao entardecer, os discípulos aproximaram-se de Jesus e disseram: “Este lugar é deserto e a hora já está adiantada. Despede as multidões, para que possam ir aos povoados comprar comida!” Jesus, porém, lhes disse: “Eles não precisam ir embora. Dai-lhes vós mesmos de comer!” Os discípulos responderam: “Só temos aqui cinco pães e dois peixes”. Jesus disse: “Trazei-os aqui”. Jesus mandou que as multidões se sentassem na grama. Então pegou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos para o céu e pronunciou a bênção. Em seguida partiu os pães e os deu aos discípulos. Os discípulos os distribuíram às multidões. Todos comeram e ficaram satisfeitos, e, dos pedaços que sobraram, recolheram ainda doze cestos cheios. E os que haviam comido eram mais ou menos cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças.
O dom do pão
Significativamente, depois da abundância da
palavra de Cristo na pregação, o evangelho de Mt e a liturgia nos confrontam
com a fartura de comida, na multiplicação dos pães. A 1ª leitura traz
o convite de Deus para nos me saciarmos com o dom de sua instrução,
na Lei e no culto verdadeiro, dom que não exige dinheiro para comprar como
exigem as idolatrias do mundo. Neste sentido, na multiplicação dos pães segundo
Mt (evangelho), não é a façanha de Jesus que está no centro da atenção, mas sua
própria pessoa: ele é o Messias e Enviado do Pai. Depois de sua farta pregação
na campanha da Galileia (Mt 5–13), terminada por uma inquietante nota a
respeito do juízo (Mt 13,49s), defrontamo-nos com o mistério da
incredulidade em várias formas: na pátria de Jesus (13,53-58) e na figura de
Herodes, intrigado por Jesus, julgando-o João Batista redivivo (Mt 14,1-2) –
pois o tinha mandado executar (14,3-12). Diante dessa incredulidade, Jesus muda
de área, vai para o deserto (14,13), o lugar preferido para Deus encontrar
sua gente. Aí afluem as multidões de pobres e humildes, os prediletos do Reino,
e o Enviado de Deus é movido por compaixão (“graça”, hésed, a qualidade
divina por excelência; Mt 14,14) e cura todos os seus enfermos. Quando, ao
entardecer, chega a hora da refeição, Jesus realiza o que a 1ª
leitura prefigurou: o banquete que não exige riqueza. Aos discípulos, que
querem mandar a turma embora, ele diz que eles mesmos lhes dêem de comer –
implicando-os assim, misteriosamente, na sua missão (como ele já fizera quando
os chamou, cf. Mt 10,1; 11º dom. do T.C.): nas suas mãos, enquanto
distribuem, multiplica-se a humilde comida de uns pãezinhos e peixes até uma
fartura messiânica. A “compaixão”, a cura do povo, o deserto, a semelhança com
o alimento que Deus aí deu aos antigos israelitas, o convite de Is 55 para
ver nisto uma nova aliança: eis alguns elementos que caracterizam esta
cena como uma manifestação messiânica de Jesus. Para os cristãos imbuídos do
espírito da liturgia é uma prefiguração da Ceia da Nova Aliança.
As orações da presente liturgia,
como também o canto da comunhão, sublinham o significado escatológico: a
alimentação que recebemos aqui é recriação para a vida eterna. O salmo
responsorial sublinha o carinho de Deus, que alimenta suas criaturas.
A 2ª leitura é a conclusão da
primeira parte de Rm: a exposição sobre a salvação pela graça de Deus e a
fé em Jesus Cristo. Paulo termina sua exposição por uma efusiva proclamação de
fé e confiança na obra de Deus em Jesus Cristo. Se Deus é conosco (pois
nos deu seu próprio Filho), quem será contra nós, quem nos condenará (Rm
8,31-34)? “Quem nos separará do amor de Cristo?”, inicia a leitura de hoje (Rm
8,35). “Amor de Cristo” significa o amor de Deus manifestado em Jesus Cristo
(8,39), portanto, um amor que vence o mundo (8,37; cf. 1Jo 5,1-5). Não se trata
de amor sentimental. Paulo trata de expressar o mesmo que escreve João:
“Nós acreditamos no amor” (1Jo 4,16). Paulo está polemizando com os que situam
a salvação em outras coisas que não o amor de Deus manifestado em Jesus Cristo:
o legalismo farisaico, a cultura helenística e tantos outros
pretensos caminhos da salvação. Não, me exclama Paulo com paixão: o que
nos salvou é o amor que Deus nos mostrou em Jesus Cristo (cf. Rm 5,1-11), e
este amor, não o largamos, ou melhor, ele não nos larga! Pois esse amor não é
“criatura” (falta no elenco das criaturas nos v. 38-39a, que inclui até os
anjos), mas graça de Deus mesmo.
Assim, a liturgia de hoje nos convida a ler
no sinal do pão uma revelação da “compaixão”, do terno amor de Deus para
conosco, que se revelou plenamente no dom de seu filho, do qual o pão também se
tornou o sinal sacramental.
Para a práxis, uma sugestão a respeito do
sentido messiânico (= realização escatológica da vontade de Deus) do
“multiplicar o pão”: enfrentar o problema da fome, no espírito de Cristo
(portanto, não por cálculo político mas por verdadeira “com-paixão”). Isso será
certamente um sinal da presença de Deus e de seu Reino.
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PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atuou como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Faleceu no dia 21 de maio de 2022. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.
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