“Vinde a mim...”
Em nossas celebrações sempre ouvimos a Palavra. Palavra com P maiúsculo, uma Palavra que é uma pessoa. As leituras feitas nos chegam da noite dos tempos e, no entanto, parecem atuais e, mais do que isso, tocam-nos lá por dentro. Deitam em nós sementes de esperança. Alguma coisa pode acontecer, ou deve acontecer após sua acolhida. A Palavra clareia o horizonte e revigora os laços de que nos unem. As palavras pronunciadas chegam ao interior de cada um e de nós todos. Elas nos unem. Importante que sejam bem ditas, articuladas e, sobretudo, acolhidas no interior de cada um, audição precedida e acompanhada de delicado silêncio. Para tanto será importante querer ouvir, ter uma vontade intermitente que os sons penetrem em nosso projeto de vida e nos ajudem a viver. É a escuta que nos dá o sabor da Presença. A fé nasce da escuta.
♦ Uma palavra do profeta, daquele que fala em nome de Deus. Desta vez Zacarias. Texto muito antigo. Texto esperançoso e cheio de júbilo. Jerusalém pode exultar de alegria. Vem um rei. Vem alguém que vai anunciar a paz às nações. Mas prestem atenção: “Eis que vem o teu rei ao teu encontro, ele é justo e ele salva; é humilde e vem montado num jumento, um potro, cria da jumenta”. Somos levados ao Domingo de Ramos em que Jesus entrou na sua cidade, montado numa cria da jumenta, num animalzinho que lhe fora emprestado. O rei que chega não desembarca de um carro triunfal. Somos convidados a olhar com carinho e estima as coisas simples, um adorável personagem que chega sem elevar voz e, segundo Zacarias, para quebrar o arco do guerreiro. Ele que veio montado num burrico.
♦ Na Epístola aos Romanos somos convidados a pensar em nosso jeito de viver. Como discípulos do Senhor somos trabalhados pelo Sopro, pelo Espírito. Paulo lembra que Espírito mora em nós. Não podemos nos esquecer. O mesmo Espírito que pairara sobre o caos, guiara os profetas, preparara caminhos do Povo, fora enviado a uma moça de Nazaré, ungira Jesus no Jordão, esse Espírito foi derramado em nossos corações. Água, vento, sopro.
♦ Uma oração… Jesus fala ao Pai com toda intimidade. Ele, esse Filho amado, gosta de estar com o Pai. Talvez um lamento. Jesus falara a todos, mas muitos não o ouviram. Jesus agradece a boa acolhida que lhe fora dada pelos simples, pelos pobres, por aqueles que se maravilham com o amor de Deus. Estamos diante do tema da revelação aos pequenos. “Eu te louvo, Pai, porque revelaste estas coisas aos pequeninos…”.
♦ Humildes, pobres de coração… Não se trata de alimentar uma humildade neurótica. Os pobres são aqueles que não donos de projetos ou desejos. Sabem que precisam dos outros. Nos tempos da pandemia sentimos na pele como não somos os donos de nosso destino. Pobres são aqueles que desatravancam seu interior de falsas seguranças e se tornam alegremente dependentes dos irmãos e Senhor, o grande Doador. Esses escutam o Evangelho. Deixam-se levar por Jesus. Gostam de conjugar o verbo agradecer em todos os tempos e modos. O Pai tem um agrado todo especial para com esses pobres felizes. “Bendirei o Senhor, bendirei em todo o tempo…”
♦ Jesus é o “primeiro dos pobres, dos simples, dos mansos. Carrega na frente a cruz sobre seus ombros; é sua proximidade que torna suportável e leve a cruz de quem o segue. A lei do Reino é a lei dos mais pequeninos e do mas pobre Deus escolhe os humildes, os simples os ignorantes… É a lei do grão de mostarda, dos inícios humildes e ocultos” (Missal Dominical da Paulus. p.737)
♦ “Jesus promete descanso a quem assume o seu jugo (cf Mt 11, 29). Uma existência de crente que esteja permanentemente estressada pelos empenhamentos pastorais e se configure como atividade frenética que não conhece pausa nem descanso, esquece aquela confiança em Cristo que é a fonte do descanso na fadiga e de consolação nas contrariedades. E que dá forma a rosto do crente, não à imagem de gerentes hiperativos, mas do Cristo manso e humilde, paciente e benévolo” (Manicardi, p. 120).
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A arte de
descansar
Acontece que
mesmo nas férias podemos cair na tirania da agitação. Antes de mais nada,
precisamos reencontrar-nos profundamente conosco mesmos e buscar o silêncio, a
calma, a serenidade que tantas vezes nos faltam durante o ano, para escutar o
melhor que há dentro de nós e ao nosso redor.
Precisamos
lembrar que uma vida intensa não é uma vida agitada. Queremos ter tudo,
açambarcar tudo e desfrutar de tudo. E nos fazemos rodear de mil coisas
supérfluas e inúteis que afogam nossa liberdade e espontaneidade.
Precisamos
redescobrir a natureza, contemplar a vida que brota perto de nós. Deter-nos
diante das coisas pequenas e das pessoas simples e boas. Experimentar que a
felicidade tem pouco a ver com as riquezas, os êxitos e o prazer fácil.
Precisamos
lembrar que o sentido último da vida não se esgota no esforço, no trabalho e na
luta. Pelo contrário, ele se revela a nós com mais claridade na festa, na
alegria compartilhada, na amizade e na convivência fraterna.
(…)
Há um descanso que só se pode encontrar no mistério de Deus acolhido em nosso coração, seguindo os passos de Jesus. (Pagola, Mateus, p. 147-149)
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Oração
Hoje queremos expressar-te, ó Pai, nossa satisfação e alegria,porque teu alento nos anima e guia,tuas mãos nos levantam e sustentam,e em teu regaço encontramos ternura e descanso.Com o coração acanhado por tantos dons recebidose tantos horizontes abertos,brota em nós com facilidade o louvor.Inundados por teu amor e cheios de alegria te exaltamos.Leva a bom termo o que começaste. (F. Ulíbarri)
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FREI ALMIR GUIMARÃES, OFM, ingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.
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