O Papa Leão XIV,
após pouco mais de uma hora de viagem, chegou às 8h54 do horário italiano na
ilha de Lampedusa para a tão aguardada visita pastoral neste sábado, 4 de
julho, em que retoma um dos gestos mais emblemáticos do pontificado de
Francisco. Em 2013, o Papa argentino denunciou a “globalização da
indiferença” e chamou a atenção do mundo para o drama dos migrantes que
arriscam a própria vida em busca de melhores condições, em particular, dessa
rota migratória do Mediterrâneo que havia definido como "o maior cemitério
da Europa". E foi depositando flores em um dos túmulos dos migrantes do
cemitério local, que morreram durante a travessia, que começou a visita
pastoral de Leão XIV à Lampedusa. No setor dedicado a migrantes, estimativas
apontam que estão sepultadas de 40 a 70 pessoas, a maioria não identificada. Ao
longo das últimas décadas, muitos migrantes identificados foram transferidos
para as suas famílias e outros foram enterrados em outros locais da Sicília por
falta de espaço em Lampedusa.
A visita do Papa
à Porta da Europa
Em seguida, o
Pontífice foi até a "Porta da Europa", um monumento criado pelo
artista Mimmo Paladino, em 2008, em memória às milhares de pessoas que perderam
a vida cruzando o Mar Mediterrâneo. A grande porta é feita de cerâmica e ferro,
com cerca de 5 metros de altura e voltada para omar. No local, o Pontífice
encontrou uma família de migrantes que o conduziu até esse que é um símbolo de
esperança em Lampedusa. Na sequência, o Papa desafiou o vento forte do local e
se dirigiu, primeiramente sozinho, até o promontório, que é uma elevação de
rocha que se projeta em direção ao mar. O local, com vista para o
mar, pode ser visto por quem chega de barco e, ao mesmo tempo, também
representa um memorial às vítimas das travessias marítimas e um convite à reflexão
sobre direitos humanos, fronteiras e hospitalidade.
A terceira etapa
da visita foi no Cais Favaloro, no Porto Novo de Lampedusa. Uma placa que
dedica o local a Papa Francisco ganhou a bênção de Leão XIV. Na ocasião, o
Pontífice encontrou outro grupo de migrantes, desta vez acompanhados pela Cruz
Vermelha.
Andressa Collet - Vatican News
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Leão XIV celebra
a missa no Campo Esportivo “Arena” ao final da sua visita em Lampedusa. Recorda
o Papa Francisco, as vítimas dos naufrágios, agradece às instituições civis,
sociais e eclesiais pelo trabalho de acolhimento realizado nestes anos e pelo
“milagre da compaixão”. Em seguida, lança um apelo ao Velho Continente para que
opte pela paz e não pela lógica da força. Recomenda derrubar as barreiras:
aquelas decorrentes da pertença religiosa ou entre migrantes e turistas.
O apelo, feito
sem gritos e, justamente por isso, ainda mais contundente, é dirigido à Europa,
chamada a assumir “uma responsabilidade única” em relação à questão migratória.
A homenagem é aos “mortos no mar”, vítimas de “decisões tomadas e decisões que faltaram”.
O agradecimento é a todos: Igreja, instituições civis, ONGs, Guarda Costeira e
aos próprios migrantes, que demonstraram por si mesmos capacidade de
acolhimento, resistência e resiliência. Fala como Pontífice, mas se apresenta
como peregrino “seguindo os passos de Papa Francisco”, o Papa Leão XIV, em uma
Lampedusa que o acolhe com calor e fervor, assim como fez há 13 anos, em 8 de
julho de 2013, com o Pontífice argentino que, sem muitos avisos prévios e com
muito pouco tempo de preparação, quis realizar nesta ilha a primeira viagem
como Sucessor de Pedro para levar consolo à comunidade abalada por um naufrágio
no qual perderam a vida mais de 300 pessoas.
Leia a íntegra da homilia do Papa Leão XIV
O agradecimento
do Papa
Uma tragédia que
se repete ao longo do tempo nessas praias cristalinas, repletas de turistas, e
que sempre receberam a mesma resposta: acolhimento, solidariedade, proximidade.
Primeiro improvisada e espontânea por parte da população, depois organizada e controlada
graças às ONGs e às forças de segurança. Por isso, Leão, na homilia da missa no
Campo Esportivo "Arena" da Localidade Salina – último compromisso da
viagem a Lampedusa –, diante de 4 mil pessoas de toda a região, repete várias
vezes a palavra “obrigado”.
"Agradeço aos voluntários, às associações agrupadas no “Fórum Solidário de Lampedusa”, às instituições civis, à Guarda Costeira, aos presidentes de Câmara e às administrações que se sucederam ao longo do tempo; agradeço aos diáconos, padres, religiosas, médicos, psicólogos, educadores; agradeço às forças de segurança e a todos aqueles que, com ou sem o dom da fé, optaram por amar em conjunto."
O Papa Leão na
missa celebrada em Lampedusa (@Vatican Media)
O Evangelho fica
mudo quando cada um se transforma em uma ilha
Uma longa lista
de instituições e representantes da Igreja, da política e da sociedade civil
que, nestes anos de desembarques e resgates, testemunharam aquele amor que é o
cerne do Evangelho. E é justamente do Evangelho que o Papa extrai sua reflexão:
ele, afirma, “ressoa onde os povos se encontram, as pessoas se acolhem
mutuamente, as suas experiências se entrelaçam e as diversas culturas dialogam
entre si”. Torna-se “mudo”, ao contrário, “onde cada um faz de si próprio uma
ilha, onde o contato é evitado e o intercâmbio é interrompido”.
Nas palavras do
Pontífice, retorna a parábola do bom samaritano, proclamada durante a liturgia,
como exemplo de “uma história que continua”. Lampedusa e Linosa encontram-se
hoje em “uma estrada perigosa”, como aquela que descia de Jerusalém a Jericó.
“Aqui — diz Leão XIV — vocês viram não apenas um, mas milhares de seres humanos
que caíram nas mãos de salteadores que lhes roubaram tudo, os espancaram
cruelmente e se afastaram, deixando-os meio mortos”. “O mar acolheu os outros,
aqueles que não conseguiram chegar onde desejavam”, ressalta o Papa. E hoje
sentimos “a presença deles”, que interpela a consciência de todos e, antes de
qualquer consideração intelectual e convicção ideológica, “convida à
proximidade”.
“Próximos nos fazemos, próximos nos tornamos!”
Mas nos tornamos
próximos por meio do amor, no qual “a compaixão, que vê o irmão no mar, é como
o primeiro estremecimento, o apelo profundo para ousar aquilo que nunca teriam
pensado”.
A memória dos
migrantes mortos no mar
O Papa dirige o
olhar às pessoas migrantes presentes no estádio: “elas mesmas não receberam só
solidariedade, mas muitas vezes a exerceram durante a sua viagem, como pobres a
ajudar os mais pobres. Obrigado, irmãos e irmãs, porque a aproximação de vocês não
é um dado adquirido nem tem nada de automático.”.
A reflexão do
Papa, ou melhor, sua denúncia também se dirige a quem “opte por não ser próximo
e há quem decida não decidir”. Os mortos no mar são, de fato, “vítimas tanto
das decisões tomadas como das decisões que faltaram”.
"O desinteresse pelo bem comum e a corrupção nos lugares de origem, um sistema económico mundial que gera pobreza e exclusão, o medo que alimenta preconceitos e desprezo, a ideia de que tais problemas não nos dizem respeito, os cálculos criminosos de quem lucra com o drama alheio, a lenta e difícil passagem de uma mera gestão de emergências à elaboração de políticas orgânicas e partilhadas: tudo isto reproduz hoje a pressa de 'passar adiante'".
Cristo derrubou
todos os muros
Assim como na
parábola do bom Samaritano, também hoje, mas, de modo geral, em todas as
épocas, “há quem tenha medo de se contaminar no contato com os outros, negando
assim – mesmo perante o sofrimento e a morte – a origem comum em Deus, a
dignidade infinita de cada ser humano e o chamamento ao amor sem limites”.
Portanto, afirma Leão, “é tempo de reconhecer e afirmar que a pertença
religiosa nunca deve tornar-se motivo de discriminação, como se a fé tivesse
fronteiras e não fosse, pelo contrário, um chamamento universal à salvação”.
"Onde havia muros de separação, Cristo derrubou-os. Não há amor a Deus sem amor ao próximo, e não há próximo se eu não me aproximar. Parar, comover-se, inclinar-se, chorar perante a dor alheia – como fez Jesus – significa entrar no movimento do amor, aquele em que Deus se revelou."
A missa
celebrada no Campo Esportivo "Arena" (@Vatican Media)
A civilização do
amor
Quem se deixa
“levar por essa dinâmica de compaixão, de misericórdia” começa, de fato, “a
viver de maneira diferente, a ser cidadão de maneira diferente, a trabalhar de
maneira diferente”. Ou seja, lança as bases para a “civilização do amor”
invocada por João XXIII, Paulo VI e João Paulo II, que, “juntamente com um
grande número de profetas e mártires do século passado”, compreenderam que “aos
abismos do coração humano e aos horrores da guerra, somente a misericórdia sabe
responder com novos começos”.
"Apoiando-nos nestes gigantes, entramos num milênio no qual devemos dar forma espiritual, cultural, jurídica, política e econômica à civilização do amor. Possa a enorme dor que testemunhamos levar-nos a compreender a radicalidade deste apelo."
É possível
“mudar de rumo e de direção”, assegura Leão XIV: “a civilização do amor não
nasce de um gesto único e espetacular, mas de uma soma de pequenas e tenazes
fidelidades, que travam a desumanização”. Os habitantes de Lampedusa são
testemunhas disso. “Nem todos têm o mesmo poder de incidir sobre a realidade
[…]. No entanto, ninguém está isento de responsabilidade. Cada um dispõe de um
próprio âmbito de ação, e é aí – e não noutro lugar – que é chamado a escolher
entre alimentar a lógica da força (mesmo que apenas com a indiferença, o
cinismo, a mentira, o ódio), ou zelar pela lógica da paz (com a verdade, a
sobriedade, a proximidade, o cuidado)”.
Mensagem à
Europa
Deste extremo
recanto do Mar Mediterrâneo, o apelo é dirigido à Europa que, no que diz
respeito às migrações, mas também à transição ecológica e à promoção da paz,
“possui um potencial único, que lhe deriva de sua história e de sua cultura, e,
portanto, uma responsabilidade equivalente”.
"Devido à sua localização geográfica e à sua estrutura institucional, a Europa é capaz de enfrentar a crise de forma orgânica, inserindo os primeiros socorros num plano estratégico de longo prazo, que permita acolher, proteger, promover e integrar os migrantes e, ao mesmo tempo, trabalhar em prol do desenvolvimento, para que ninguém seja obrigado a emigrar."
Tudo isso
zelando pelo “respeito à dignidade de cada pessoa”, tarefa que cabe às
instituições públicas, à sociedade civil e à Igreja.
As barreiras
entre náufragos e turistas
Leão aborda,
então, um dos pontos sensíveis da realidade de Lampedusa: “A cultura do
acolhimento tem uma vocação turística, que pode sentir-se infelizmente ameaçada
pelas rotas migratórias e transformar-se em indiferença, ou mesmo em
contraposição aos seus aspetos dramáticos”, destaca. “Para muitos, de fato, as
férias representam somente diversão, descontração e despreocupação. Por isso,
parece que é necessário erguer um muro invisível entre o mar dos náufragos e o
dos turistas”.
"Tenham a ousadia de pensar de forma diferente. Pouco a pouco e com criatividade, conseguirão fazer que quem transcorre um período, mesmo de descanso, nesta ilha, se possa tornar mais humano ao confrontar-se com a caridade de vocês, com o que o mar os ensinou, com os encontros que os educaram."
“Efetivamente,
existe autêntico descanso onde se redescobre o sentido da vida; e existe
bem-estar verdadeiro quando a economia é justa e fraterna”, comenta Leão.
“Nessa economia, o cuidado pela criação e pela amizade social fundem-se numa
síntese, que hoje a humanidade procura.”.
“O'scià!”
Uma palavra
também às paróquias, para que sejam “comunidades onde, à luz do Evangelho, se
aprenda juntos a acolher, acompanhar e integrar, num espírito de comunhão”. E,
por fim, uma recomendação: “não nos deixemos dominar pelo medo, mas encaremos
as dificuldades do dia a dia como oportunidades e um tempo de testemunho. Que a
fé de vocês, caríssimos, seja, pois, fortalecida por estes anos de provação e
de empenho generoso”.
"Nunca os falte o alento da fé, da esperança e da caridade: «O’scià!»" [Saudação típica dos habitantes de Lampedusa].
Salvatore Cernuzio – enviado a Lampedusa
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De Francisco a Leão XIV em Lampedusa:"O fato de
vocês terem decidido intitular o Cais Favaloro com o nome do Papa Francisco é
um sinal do vínculo que o meu predecessor estabeleceu com a comunidade de vocês
e com os irmãos e irmãs migrantes: o Papa esteve ao lado de vocês neste período
tão difícil para vocês. E hoje estou aqui para lhes dizer que o Papa continua a
acompanhá-los, a apoiá-los e a encorajá-los", disse Leão XIV na saudação
que precedeu a missa no Campo Esportivo de Lampedusa, na manhã deste sábado
(04/07).
No Campo
Esportivo "Arena" de Lampedusa, no sul da Itália, onde o Papa
transcorreu a manhã deste sábado (04/07) em visita pastoral, Leão XIV encontrou
os fiéis durante um giro de papamóvel antes da celebração da missa e última
etapa na ilha que é símbolo das rotas migratórias no Mediterrâneo. Ele foi
saudado pelo prefeito Filippo Mannino, que descreveu a visita de Leão XIV como
um presente, um gesto fraterno, além de uma responsabilidade naquele
"pequeno pedaço de terra em meio ao mar", mas que há muitos anos
carrega feridas e esperanças que pertencem ao mundo inteiro.
Lampedusa,
continuou o prefeito, é também "espera, porto de chegada, dor e
memória. É o lugar onde tantas pessoas buscaram salvação, dignidade e futuro.
Algumas encontraram uma nova perspectiva, outras nunca chegaram: todas elas
estão em nossos corações. Nossa comunidade conhece o valor e o peso dessa
história", entre pescadores, socorristas, forças de segurança,
voluntários, profissionais e famílias inteiras, além das instituições que
serviram de apoio. A ilha, disse Mannino, "muitas vezes em silêncio, aprendeu
a encarar o mar não apenas como uma fronteira, mas como um chamado",
acreditando "que toda vida humana é sagrada" e que sirva de farol no
apelo de paz pelos povos feridos que defendem a vida:
“Esta é Lampedusa: um pequeno sinal de paz no coração do Mediterrâneo que fala aos homens de todas as partes do mundo. Uma ilha tão pequena mostrou que mesmo o que parece frágil pode realizar coisas imensas. Ela acolheu, socorreu, consolou. Conheceu o medo, o cansaço, a dor, a raiva, mas nunca deixou de estender a mão.”
O Papa continua
ao lado de vocês
Ao agradecer a
mensagem do prefeito em nome de Lampedusa e Linosa, Leão XIV agradeceu a
calorosa acolhida na ilha, que também continua honrando a passagem do Papa
Francisco e o legado deixado para a comunidade e todos os migrantes. Esse
reconhecimento veio com uma placa que dedica o Cais Favaloro, no Porto Novo, a
Papa Francisco, que inclusive foi abençoada por Leão XIV:
"O fato de
vocês terem decidido intitular o Cais Favaloro com o nome do Papa Francisco é
um sinal do vínculo que o meu predecessor estabeleceu com a comunidade de vocês
e com os irmãos e irmãs migrantes: o Papa esteve ao lado de vocês neste período
tão difícil para vocês. E hoje estou aqui para lhes dizer que o Papa continua a
acompanhá-los, a apoiá-los e a encorajá-los."
“Não vim para fazer discursos, mas para celebrar a Eucaristia, sinal supremo da presença de Cristo entre nós. O gesto de Jesus que parte o pão para doar a Si mesmo dá sentido e força aos nossos gestos cotidianos de assistência e partilha. Sim, este é um lugar onde, mais do que palavras, falam os gestos. Mas os gestos, para serem humanos, precisam de um coração. É por isso que nos reunimos aqui: para buscar em Cristo o amor que somente Ele pode nos dar, para que o mundo de hoje e de amanhã seja mais humano, mais humano para todos.”
Andressa Collet - Vatican News
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A visita
pastoral do Papa Leão XIV neste sábado (04/07), na ilha italiana de Lampedusa,
foi concluída com a missa no Campo Esportivo "Arena", na localidade
Salina. Confira a íntegra da homilia do Pontífice.
"Queridos irmãos e irmãs,
Deus ama-nos sempre primeiro. A beleza do mar, desta ilha e dos vossos rostos é um reflexo da sua iniciativa gratuita: o amor precede-nos, envolve-nos e reúne-nos. Estou grato ao Senhor por poder visitar-vos, seguindo os passos do Papa Francisco, que, a 8 de julho de 2013, quis vir a Lampedusa na sua primeira viagem como Sucessor de Pedro.
Como é sabido, os Apóstolos navegaram pelo Mediterrâneo e experimentaram a hospitalidade dos habitantes das suas ilhas e costas, que há milénios são uma encruzilhada de civilizações. O Evangelho ressoa onde os povos se encontram, as pessoas se acolhem mutuamente, as suas experiências se entrelaçam e as diversas culturas dialogam entre si. Em contrapartida, não ecoa onde cada um faz de si próprio uma ilha, onde o contacto é evitado e o intercâmbio é interrompido. Neste sentido, a parábola do Bom Samaritano, que acabou de ser proclamada, descreve uma história em continuidade (cf. Lc 10, 25-37). A Encíclica Fratelli tutti ajudou-nos a relê-la nas circunstâncias históricas dramáticas em que ainda nos encontramos imersos. A Palavra de Deus é sempre para o hoje da história e conduz-nos a um diálogo do qual saímos transfigurados. Como responderemos, então, ao amor daquele que nos amou primeiro?
Caríssimos, hoje, Lampedusa e Linosa encontram-se numa estrada tão perigosa como aquela que descia de Jerusalém para Jericó (cf. v. 30). Aqui vistes não apenas um, mas milhares de seres humanos que caíram nas mãos de salteadores que lhes roubaram tudo, os espancaram cruelmente e se afastaram, deixando-os meio mortos (cf. Lc 10, 30). Os outros – aqueles que não conseguiram chegar onde desejavam – acolheu-os o mar. Sentimos, no entanto, a sua presença, que nos interpela não menos que a daqueles que desembarcaram, necessitados de atenção e socorro. Antes de qualquer consideração intelectual e convicção ideológica, o embate com quem jaz diante de nós, despojado de tudo, convida-nos à proximidade. A Carta aos Hebreus diz-nos: «Lembrai-vos […] dos que são maltratados, porque também vós tendes um corpo» (Heb 13, 3). Trata-se do ponto central da parábola evangélica: próximos nos fazemos, próximos nos tornamos (cf. Lc 10, 36-37)!
Vim agradecer-vos, irmãos e irmãs aqui em Lampedusa, a proximidade que muitos de vós decidistes exercer. O milagre da compaixão voltou a acontecer. «Vendo-o, encheu-se de compaixão» (v. 33): uma revolução interior que faz surgir em nós o “sentir” de Deus e alarga os pensamentos, o coração e a vida. Agradeço aos voluntários, às associações agrupadas no “Fórum Solidário de Lampedusa”, às instituições civis, à Guarda Costeira, aos presidentes de Câmara e às administrações que se sucederam ao longo do tempo; agradeço aos diáconos, padres, religiosas, médicos, psicólogos, educadores; agradeço às forças de segurança e a todos aqueles que, com ou sem o dom da fé, optaram por amar em conjunto. Sim, porque entre vós foi o amor que se organizou, aquele amor cuja compaixão – vendo o irmão no mar – é como o primeiro estremecimento, o apelo profundo para ousar aquilo que nunca teríeis pensado. Saúdo os migrantes que aqui se encontram: eles próprios não receberam só solidariedade, mas muitas vezes a exerceram durante a sua viagem, como pobres a ajudar os mais pobres. Obrigado, irmãos e irmãs, porque a vossa aproximação não é um dado adquirido nem tem nada de automático.
A parábola que acabámos de escutar diz-nos isso mesmo: o amor existe sempre na liberdade e a liberdade está nas decisões. Há quem opte por não ser próximo e há quem decida não decidir. Os mortos neste mar são vítimas tanto das decisões tomadas como das decisões que faltaram. O desinteresse pelo bem comum e a corrupção nos lugares de origem, um sistema económico mundial que gera pobreza e exclusão, o medo que alimenta preconceitos e desprezo, a ideia de que tais problemas não nos dizem respeito, os cálculos criminosos de quem lucra com o drama alheio, a lenta e difícil passagem de uma mera gestão de emergências à elaboração de políticas orgânicas e partilhadas: tudo isto reproduz hoje a pressa de “passar adiante”, da narrativa evangélica (cf. vv. 31.32).
Na parábola, um sacerdote encontra-se ali «por coincidência» (v. 31), e depois dele um levita. Ambos veem, mas passam adiante. Infelizmente, em todas as épocas há quem tenha medo de se contaminar no contacto com os outros, negando assim – mesmo perante o sofrimento e a morte – a origem comum em Deus, a dignidade infinita de cada ser humano e o chamamento ao amor sem limites. É tempo de reconhecer e afirmar que a pertença religiosa nunca deve tornar-se motivo de discriminação, como se a fé tivesse fronteiras e não fosse, pelo contrário, um chamamento universal à salvação. Onde havia muros de separação, Cristo derrubou-os (cf. Ef 2, 14). Não há amor a Deus sem amor ao próximo, e não há próximo se eu não me aproximar. Parar, comover-se, inclinar-se, chorar perante a dor alheia – como fez Jesus – significa entrar no movimento do amor, aquele em que Deus se revelou.
Caríssimos, quem se deixa conduzir por esta dinâmica de compaixão e misericórdia começa a viver de forma diferente, a ser cidadão de forma diferente, a trabalhar de forma diferente. Pode, então, surgir verdadeiramente a civilização do amor, proposta pelos meus santos predecessores João XXIII, Paulo VI e João Paulo II. Com um grande número de profetas e mártires do século passado, perante os abismos do coração humano e os horrores da guerra, compreenderam que só a misericórdia sabe responder com novos começos. Apoiando-nos nestes gigantes, entrámos num milénio no qual devemos dar forma espiritual, cultural, jurídica, política e económica à civilização do amor. Possa a enorme dor que testemunhamos levar-nos a compreender a radicalidade deste apelo.
Tal como o samaritano, podemos mudar de planos e direção. E mais do que o samaritano, dispomos de recursos e oportunidades para concretizar historicamente a esperança. Ele «aproximou-se, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele» (Lc 10, 34). Também nós temos de reconhecer que «a civilização do amor não nasce dum gesto único e espetacular, mas duma soma de pequenas e tenazes fidelidades, que travam a desumanização» (Carta enc. Magnifica humanitas, 213). Disto, amigos de Lampedusa, vós sois testemunhas! Aqui, estando convosco, compreende-se melhor o nosso tempo e cada um pode examinar o rumo da própria vida. «Claro, nem todos têm o mesmo poder de incidir sobre a realidade […]. No entanto, ninguém está isento de responsabilidade. Cada um dispõe de um próprio âmbito de ação, e é aí – e não noutro lugar – que é chamado a escolher entre alimentar a lógica da força (mesmo que apenas com a indiferença, o cinismo, a mentira, o ódio), ou zelar pela lógica da paz (com a verdade, a sobriedade, a proximidade, o cuidado)» (ibid., 212).
Por isso, a partir desta extremidade da Europa no Mar Mediterrâneo, percebe-se melhor o apelo histórico que o fenómeno migratório dirige às sociedades europeias. Também neste aspeto – tal como nos da transição ecológica e da promoção da paz – a Europa possui um potencial único, decorrente da sua história e da sua cultura, e, por conseguinte, possui uma responsabilidade única. Neste âmbito, devido à sua localização geográfica e à sua estrutura institucional, a Europa é capaz de enfrentar a crise de forma orgânica, inserindo os primeiros socorros num plano estratégico de longo prazo, que permita acolher, proteger, promover e integrar os migrantes e, ao mesmo tempo, trabalhar em prol do desenvolvimento, para que ninguém seja obrigado a emigrar. Tudo isto, zelando pelo respeito da dignidade de cada pessoa. Trata-se de uma tarefa das instituições públicas, mas também de toda a sociedade civil e da Igreja.
Irmãs e irmãos, como referi recentemente em Tenerife, durante a viagem apostólica à Espanha, também em Lampedusa a cultura do acolhimento tem uma vocação turística, que pode sentir-se infelizmente ameaçada pelas rotas migratórias e transformar-se em indiferença, ou mesmo em contraposição aos seus aspetos dramáticos. Com efeito, para muitos, as férias representam somente diversão, descontração e despreocupação. Por isso, parece que é necessário erguer um muro invisível entre o mar dos náufragos e o dos turistas. Tende, pois, a ousadia de pensar de forma diferente. Pouco a pouco e com criatividade, conseguireis fazer que quem transcorre um período, mesmo de descanso, nesta ilha, se possa tornar mais humano ao confrontar-se com a vossa caridade, com o que o mar vos ensinou, com os encontros que vos educaram. Efetivamente, existe autêntico descanso onde se redescobre o sentido da vida; e existe bem-estar verdadeiro quando a economia é justa e fraterna. Nesta economia, o cuidado pela criação e pela amizade social fundem-se numa síntese, que hoje a humanidade procura.
A primeira leitura recordou-nos que, ao praticar a hospitalidade, «alguns, sem o saberem, hospedaram anjos» (Heb 13, 2). Sede, portanto, em pequena escala, uma profecia daquilo a que podemos aspirar juntos em grande escala. Os primeiros a beneficiar disso sereis vós e as vossas famílias, superando divisões e divergências que só a caridade pode dissolver. A paróquia, em particular, seja uma comunidade onde, à luz do Evangelho, aprendemos juntos a acolher, a acompanhar e a integrar, num estilo de comunhão.
Temos aqui, junto ao altar, a imagem da Nossa Senhora de Porto Salvo, padroeira de Lampedusa. Talvez sabais já que Santo Agostinho gostava de descrever a vida humana como uma navegação em mar tempestuoso e o seu destino como um porto protegido e seguro. Não nos deixemos dominar pelo medo, mas encaremos as dificuldades do dia a dia como oportunidades e um tempo de testemunho. Que a vossa fé, caríssimos, seja, pois, fortalecida por estes anos de provação e de empenho generoso. Que esta venerada imagem vos volte a falar com mesma a força de outrora, quando quem vos transmitiu a devoção se confiava à intercessão da Virgem com radical sinceridade. Todos nós temos em Deus um porto seguro, e cada comunidade cristã é chamada a ser um reflexo disso mesmo na terra. A vós, comunidades de Lampedusa e Linosa, nunca vos falte o alento da fé, da esperança e da caridade: «O’scià!» [Saudação típica dos habitantes de Lampedusa]."
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