sábado, 15 de fevereiro de 2025

Bela reflexão do frei Almir Guimarães:

Uma felicidade aparentemente às avessas

Abraçar diariamente o caminho do Evangelho, mesmo que nos acarrete problemas: isto é santidade. (Papa Francisco, Gaudete et Exsultate, n. 94)

 Jeremias, na primeira leitura deste domingo, nos lembra que o homem que confia no Senhor é como uma planta viçosa, localizada perto de um curso de água. Nada teme. Caminha impassível pela vida. De outro lado, os que confiam apenas em seus próprios recursos e possibilidades não veem chegar a floração. Plantas que murcham.

 No evangelho proclamado, mais uma vez a página da felicidade, dos bem-aventurados, desta vez na versão de Lucas. Não se trata aqui do Sermão da Montanha. Lucas afirma que Jesus desceu da montanha e parou num lugar plano. Uma fala sobre a felicidade em quatro registros: os pobres, os famintos e sedentos, os que choram, os que são odiados, perseguidos ou não levados em consideração. O Sermão da Planície de Lucas.

 “A escuta singela das bem-aventuranças provoca sempre em nós um eco especial. Por um lado seu tom fortemente paradoxal nos desconcerta. Por outro, a promessa que encerram nos atrai, porque oferecem a resposta a essa sede que existe no mais profundo de nosso ser. Nós, cristãos, esquecemos que Evangelho é um chamado a ser felizes. Não de qualquer maneira, mas pelos caminhos que Jesus sugere e que são completamente diferentes dos caminhos que a sociedade atual propõe. Este e seu maior desafio” (Pagola, Lucas, p.105).

 Bem-aventuados os que têm um espírito de pobreza – Pobre é a pessoa livre para Deus e para os outros. É aquele que foi se libertando de complacências, vaidades, das exigências do homem velho, sempre chorão, reclamão. Serão bem-aventurados no mundo novo do Reino as pessoas que forem despojadas, que não se importam de não terem sido chamadas a sentar à mesa da presidência. Pobres, desapegados. O Evangelho pede que sejamos pessoas avessas à ostentação, vacinadas a comprometimentos que nos apequenam. Desapegados de ideias feitas, mesmo de hábitos, principalmente de suas manias. Os pobres, os que não estão preocupados demais com vantagens mostram uma excelente qualidade de atenção aos outros. São pessoas adoráveis. Já estão na ante sala do mundo novo que se chama Reino. São seus herdeiros.

 O futuro pertence aos pobres. O futuro que Deus promete não pertence aos que já chegaram, mas aos que ainda nem partiram. Pertence aos pobres. Apenas eles são os que esperam alguma coisa ou alguém. Os ricos nada têm a esperar do amanhã. Têm tudo. Nada mais lhes resta senão o medo: medo de perder, medo de que falte alguma coisa, medo de serem esquecidos, medo de ficarem sozinhos. Não têm outro destino senão a sepultura. Os pobres já estão no processo de ressurreição para a Vida. Usam vestes de esperança.

 Bem-aventurados os que têm fome e sede – Podemos pensar nos que têm o estomago vazio e a garganta seca. Este, no entanto, não pode ser o verdadeiro sentido da bem-aventurança. Há pessoas satisfeitas com tudo. Com as coisas que fazem e os bens que possuem. Seus armários e suas contas bancárias são garantia. Felizes os que experimentam na garganta uma sede de Deus. Não de um Deus feito na medida de seus interesses e necessidades individuais, mas sede do Mistério de Amor que vem encher-nos de plenitude. Na vida da fé e no processo de humanização são felizes aqueles que sentem necessidade do alimento da amizade, do nutrimento da Palavra. Aqueles que não estão satisfeitos com os passos dados e por vezes mal dados. Têm saudade de plenitude e um desejo de serem santos.

 Fome de justiça… O Papa Francisco: “Fome e sede” são experiências muito intensas, porque correspondem às necessidades primárias e têm a ver com o instinto de sobrevivência. Há pessoas que, com esta mesma intensidade, aspiram pela justiça e buscam-na com um desejo assim forte. Jesus diz que elas serão saciadas, porque a justiça, mais cedo ou mais tarde, chega e nós podemos torná-lo possível, embora nem sempre vejamos os resultados deste compromisso (“Gaudete et Exsultate”, n. 77).

 Bem-aventurados os que choram… – Eles haverão de rir. Deus se torna próximo daqueles que sofrem, quaisquer que sejam eles. A todos traz consolo, sem discriminação, pobres ou ricos. Jesus se compadeceu da dor da viúva de Naim, sofreu com as irmãs com morte de Lázaro. As lágrimas dão a entender que alma não se tornou insensível nem de estratificou. Somos convidados a chorar com os que choram, a nos compadecer, quer dizer sofrer com os que sofrem. Há lágrimas dolorosas. Há outras lágrimas que são de gratidão e de alegria.

 Jesus fala de uma alegria prometida aos que choram. O Papa Francisco assim se exprime: “A pessoa que, vendo as coisas, como realmente estão, se deixa trespassar pela aflição e chora no seu coração, é capaz de alcançar as profundezas da vida e ser autenticamente feliz. Esta pessoa é consolada, mas com a consolação de Jesus e não com a do mundo. Assim pode ter a coragem de compartilhar o sofrimento alheio, e deixa de fugir de situações dolorosas. Desta forma, descobre que a vida tem sentido socorrendo o outro em sua aflição, compreendendo a angústia alheia, aliviando o outros. Esta pessoa sente que o outro é carne de sua carne, não teme aproximar-se até tocar a sua ferida, compadece-se até sentir que as distâncias são superadas. Assim, é possível acolher aquela exortação de São Paulo: “Chorai com os que choram (Rm 12,15 (Gaudete et Exsultate, n. 76).

 Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem – Há pessoas que são odiadas porque seu testemunho incomoda. Elas são um grito que penetra os corações dos que foram se acomodando com a mediocridade. Há aquelas que não são levadas em consideração, que podem morrer ou desaparecer que não serão notadas, às quais nunca nada se pede nem mesmo seu parecer. Felizes os que defendem a verdade, salvam os inocentes. Os perseguidos têm em seu rosto fortes traços de Jesus.

 De acordo com Jesus é melhor dar do que receber, é melhor servir do que dominar, compartilhar do que ajuntar, perdoar do que vingar-se. Quando procuramos ouvir sinceramente o que de melhor há em nós intuímos que Jesus tem toda razão. As bem-aventuranças constituem a chave da felicidade.

Oração

Ensina-nos, Senhor, a viver o espírito das bem-aventuranças,
chaves de ouro, chaves da verdade
Ensina-nos a distinguir, graças a elas,
o Essencial do acessório,
o Importante do irrisório,
o Eterno do efêmero,
o Primordial do secundário.
Livra-nos de todos os medos;
medo de perder um privilégio,
medo de falhar, medo de sofrer.
Assim poderemos nos entregar totalmente
às bem-aventuranças e entrar em teu Reino de Amor.

Amém.

____________________________________________________________________________________

FREI ALMIR GUIMARÃES, OFMingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.

_______________________________________________________
                                                       Fonte: franciscanos.org.br       Banner: Frei Fábio M. Vasconcelos

Nenhum comentário:

Postar um comentário