sábado, 10 de outubro de 2026

Reflexão do frei Almir Guimarães para o seu sábado:

No final de tudo, uma festa de casamento

Um dos inimigos mais insidiosos e difusos da fé, mais temível que o ateísmo e a oposição aberta é a indiferença. (Luciano Manicardi)

Almoço do Papa com pessoas pobres

Neste período do tempo litúrgico, eis-nos ouvindo parábolas recolhidas pelo evangelista Mateus. Algumas são claras e meridianas. Outras requerem amplo e profundo conhecimento da história do Povo de Israel para serem corretamente compreendidas. A historieta da vez fala da festa de casamento do filho do rei. O rei quer ver a sala cheia. Trata-se da convocação para um banquete final.

O que está por detrás da imagem do banquete? Reunião de pessoas que se estimam e fazem juntas uma refeição diferente, festiva. Para descrever e dar ideia do final, Jesus fala de uma imensa mesa de refeição: júbilo pelo encontro, uns perto dos outros, a alegria do vinho, o convívio carinhoso. Um final feliz.

De início, uma nota negativa. Deus, o belo, o generoso, o amor quer reunir homens e mulheres em torno de si. Ele os convoca por meio de seus enviados. Os empregados voltam dizendo que as pessoas não aceitaram o convite. Que se repita o convite, afinal contas os animais cevados já foram abatidos. A comida está pronta. Que venham à festa do amor daquele que a todos ama e sonha com o banquete. Nada de respostas: um foi para o campo, outro para seus negócios. Pior ainda: houve os que mataram os enviados do rei. Mortos são os profetas…os mensageiros do Amor.

O Senhor tem seus caminhos para chegar ao coração das pessoas. Há momentos em que o apelo acontece quando o coração do homem experimenta um vazio. Outras vezes no meio de uma alegria incontida. Outras vezes ainda numa viagem feita ao silêncio ou depois de sair de uma terrível tempestade. Ele tem seus caminhos. Chama-nos também pelos profetas de hoje e pelos sinais dos tempos.

Tudo indica que a porta está aberta para a festa do amor quando há uma sede que não se consegue dessedentar. Os autores de espiritualidade costumam lembrar que as respostas ao convite à intimidade e o labor evangelizador acontece quando o homem tem o coração contrito. Seres sequiosos de ventura, mas conscientes de suas incoerências. Estes balbuciam baixinho: “Olha Senhor para a fragilidade de teu amigo”. Nesses seres sinceros a Palavra produz seus frutos. É o começo da festa.

O desgosto do rei foi tão grande em ver a sala vazia que mandou que seus mensageiros convidassem todos os que encontrassem. Forçassem a entrar na sala. Talvez aqueles que nunca frequentaram religiões e templos, os que não tinham muito valor aos olhos de ninguém. Gente solta no espaço.

Sempre entusiasmante e ao mesmo tempo desafiador é o trabalho evangelizar, de chamar homens e mulheres para a sala do banquete. Se o Senhor não fizer seu trabalho em muitos corações nada acontece. Chamamos a atenção para alguns obstáculos. Há os que não quiseram, simplesmente porque não quiseram. Não basta que as pessoas sejam convidadas, mas é preciso corresponder por sua vontade ao serviço do chamamento. Há a negligência e a superficialidade, de quem não estima, não dá valor ao dom oferecido ou proposto. A pessoa fecha-se em seus afazeres e a vida passa. A parábola fala de pessoas que chegaram a matar os que lhe trouxeram o convite em mãos.

“Um dos inimigos mais insidiosos e difusos na fé, mais temível mesmo que o ateísmo e a oposição aberta, é a indiferença”. Não dar peso algum ao convite, preferir a rotina cotidiana, seus negócios, seus interesses. O grave é que esta indiferença deixa o que crê numa crise aguda porque denota que para ele a vida de fé é irrelevante e insignificante. Seriam, em parte, os mornos de que fala o Apocalipse.

Pode ser que muitos de nós tenhamos sido chamados e aceito o convite, mas circulemos nos espaços da sala do banquete sem a veste nupcial, quer dizer, não basta apenas ser chamado. O convite é gratuito, mas é preciso correspondência ao dom ao longo da vida. Deixar que a graça atue.

Fidelidade, reconhecimento, vontade de sempre começar tudo de novo.

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Oração

Quando meu pecado me desanimar,
ajuda-me a crer que tu não deixas nunca
de semear no barro de minha mediocridade.
Quando o sofrimento me deixar sem forças,
ajuda-me a crer que tu estás semeando em mim
uma secreta fecundidade.
Quando a morte próxima me causar medo,
ajuda-me a crer que o grão que morre é semente
de uma espiga dourada.
Quando a desgraça dos oprimidos me entristecer
ajuda-me a crer que nosso amor solidário
é semente de justiça e liberdade.
Quando eu vir teus servidores infiéis à nossa missão,
ajuda-me a crer Tu semeias
no coração de nossas contradições. (Inspirado em Michel Hubaut)

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FREI ALMIR GUIMARÃES, OFM, ingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.

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sexta-feira, 9 de outubro de 2026

28º Domingo do Tempo Comum:

Leituras e reflexão

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1ª Leitura: Is 25,6-10a

Leitura do livro do profeta Isaías

O Senhor dos exércitos dará neste monte, para todos os povos, um banquete de ricas iguarias, regado com vinho puro, servido de pratos deliciosos e dos mais finos vinhos. Ele removerá, neste monte, a ponta da cadeia que ligava todos os povos, a teia em que tinha envolvido todas as nações.

O Senhor Deus eliminará para sempre a morte e enxugará as lágrimas de todas as faces e acabará com a desonra do seu povo em toda a terra; o Senhor o disse.

Naquele dia, se dirá: “Este é o nosso Deus, esperamos nele, até que nos salvou; este é o Senhor, nele temos confiado; vamos alegrar-nos e exultar por nos ter salvo”. E a mão do Senhor repousará sobre este monte.

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Responsório: Sl 22

— Na casa do Senhor habitarei, eternamente.

— Na casa do Senhor habitarei, eternamente.

— O Senhor é o pastor que me conduz;/ não me falta coisa alguma./ Pelos prados e campinas verdejantes/ ele me leva a descansar./ Pelas águas repousantes me encaminha,/ e restaura as minhas forças.

— Ele me guia no caminho mais seguro,/ pela honra de seu nome./ Mesmo que eu passe pelo vale tenebroso,/ nenhum mal eu temerei; estais comigo com bastão e com cajado;/ eles me dão a segurança!

— Preparais à minha frente uma mesa,/ bem à vista do inimigo,/ e com óleo vós ungis minha cabeça;/ o meu cálice transborda.

— Felicidade e todo bem hão de seguir-me/ por toda a minha vida;/ e na casa do Senhor habitarei/ pelos tempos infinitos.

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2ª Leitura: Fil 4,12-14.19-20

Leitura da Carta de São Paulo aos Filipenses

Irmãos: Sei viver na miséria e sei viver na abundância. Eu aprendi o segredo de viver em toda e qualquer situação, estando farto ou passando fome, tendo de sobra ou passando necessidade. Tudo posso naquele que me dá força. No entanto, fizestes bem em compartilhar as minhas dificuldades.

O meu Deus proverá esplendidamente com sua riqueza a todas as vossas necessidades, em Cristo Jesus. Ao nosso Deus e Pai a glória pelos séculos dos séculos. Amém.

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Evangelho: Mt 22,1-14

Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo São Mateus

Jesus voltou a falar em parábolas aos chefes dos sacerdotes e aos anciãos do povo. Ele dizia: «O Reino do Céu é como um rei que preparou a festa de casamento do seu filho. E mandou seus empregados chamar os convidados para a festa, mas estes não quiseram ir. O rei mandou outros empregados, dizendo: ‘Falem aos convidados que eu já preparei o banquete, os bois e animais gordos já foram abatidos, e tudo está pronto. Que venham para a festa’. Mas os convidados não deram a menor atenção; um foi para o seu campo, outro foi fazer os seus negócios, e outros agarraram os empregados, bateram neles, e os mataram. Indignado, o rei mandou suas tropas, que mataram aqueles assassinos, e puseram fogo na cidade deles.

Em seguida, o rei disse aos empregados: ‘A festa de casamento está pronta, mas os convidados não a mereceram. Portanto, vão até as encruzilhadas dos caminhos, e convidem para a festa todos os que vocês encontrarem’. Então os empregados saíram pelos caminhos, e reuniram todos os que encontraram, maus e bons. E a sala da festa ficou cheia de convidados. Quando o rei entrou para ver os convidados, observou aí alguém que não estava usando o traje de festa. E lhe perguntou: ‘Amigo, como foi que você entrou aqui sem o traje de festa?’ Mas o homem nada respondeu. Então o rei disse aos que serviam: ‘Amarrem os pés e as mãos desse homem, e o joguem fora na escuridão. Aí haverá choro e ranger de dentes’. Porque muitos são chamados, e poucos são escolhidos.»

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Reflexão do padre Johan Konings:

"Poucos são os escolhidos"...

Há quem ensine que o número dos “eleitos” é limitado, preestabelecido. Os eleitos vivem conforme sua eleição, e os outros … se danem. Mas a Bíblia acentua a universalidade da salvação. Todos são chamados. O profeta Isaías descreve a felicidade do fim dos tempos como um banquete universal na montanha de Deus, em Jerusalém (1ª leitura). Inspirando-se nesta imagem, Jesus, no evangelho, fala de um rei que oferece um banquete para o casamento do seu filho (o Messias “esposo do povo”). Manda vir primeiro os convidados de praxe (os chefes de Israel), mas estes se esquivam. Então manda convidar todo o mundo: miseráveis, estropiados, aleijados … (a Igreja convocada entre toda espécie de gente). Depois, porém, Jesus acrescenta uma segunda parábola: um dos convidados não vestiu traje de festa … é expulso.

Todos são convidados, e os que declinam o convite perdem sua vez. Agora convidam-se até os mais pobres, mas isso não quer dizer que podem se apresentar dum jeito qualquer. No mínimo têm que vestir a melhor roupa: a fé e a prática que Cristo espera de nós. O convite é universal, feito sem acepção de pessoas, mas não sem exigências!

Os que recusam o convite não são apenas os chefes de Israel, mas todos aqueles que, bem instalados e satisfeitos consigo mesmos, são incapazes de se alegrarem com o convite universal. Ficam de cara feia, agora que a Igreja convida os pobres para serem realmente “sujeitos” na comunidade eclesial.

Por outro lado, até dos mais simples se exige que “vistam a camiseta”. Trata-se de combinar a disponibilidade para o convite do Senhor (a simplicidade, a alegria), com o empenho por corresponder à sua expectativa. O traje mais bonito que temos é a caridade. Quantas pessoas usam este traje para participar do “banquete eucarístico”?

“Muitos são chamados, nem todos são escolhidos”. Jesus quer dizer que o fato de ser chamado – que vale para todos – não é suficiente para contar com a eleição. Ora, o que decide se seremos eleitos ou não é a nossa disposição. Quem se alegra com o que Deus faz e revela em Jesus, quem na prática adere a esse modo de viver, sem dúvida poderá participar da festa. Deus convida a todos, mas os admitidos são aqueles que, por sua vida, correspondem ao convite. A “seleção” não é preestabelecida por Deus, mas é o efeito de nosso modo de responder dignamente ao apelo universal.

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PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atuou como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Faleceu no dia 21 de maio de 2022. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.

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               Fonte: franciscanos.org.br  Imagem: vaticannews.va  Banner: Frei Fábio M. Vasconcelos

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Bela e sábia reflexão:

Desenvolvimento integral 

Dom Geraldo dos Reis Maia - Bispo de Araçuaí (MG)

O termo “desenvolvimento integral” foi amplamente trabalhado pelo Papa Paulo VI em sua Carta encíclica Populorum Progressio, sobre o desenvolvimento dos povos, publicada em 26 de março de 1967, na esteira das preocupações sociais já apresentadas por seus predecessores Leão XIII, Pio XI, Pio XII e João XXIII. Assim, Paulo VI iniciou sua Encíclica: 

“O desenvolvimento dos povos, especialmente daqueles que se esforçam por afastar a fome, a miséria, as doenças endêmicas, a ignorância; que procuram uma participação mais ampla nos frutos da civilização, uma valorização mais ativa das suas qualidades humanas; que se orientam com decisão para o seu pleno desenvolvimento, é seguido com atenção pela Igreja” (PP, 1). 

Para justificar que a missão da Igreja abrange também as questões socioeconômicas, Paulo VI declarou: “Depois do Concílio Ecumênico Vaticano II, uma renovada conscientização das exigências da mensagem evangélica traz à Igreja a obrigação de se pôr ao serviço dos homens, para os ajudar a aprofundarem todas as dimensões de tão grave problema e para os convencer da urgência de uma ação solidária neste virar decisivo da história da humanidade” (PP, 1). 

Após apresentar as principais aspirações do ser humano, o texto analisa a realidade da colonização e do colonialismo, constatando um desequilíbrio crescente. Em contrapartida, percebe-se uma tomada de consciência  cada vez  maior dessa realidade. Isso gera “o choque entre as civilizações tradicionais e as novidades da civilização industrial”, que acaba por quebrar “as estruturas que não se adaptam às novas condições” (PP, 10). 

O Papa apresenta a visão cristã do desenvolvimento, que “não se reduz a um simples crescimento econômico. Para ser autêntico, deve ser integral, quer dizer, promover todos os homens e o homem todo” (PP, 14). Um pouco mais à frente, Paulo VI explica melhor esse conceito: “O desenvolvimento integral do homem não pode realizar-se sem o desenvolvimento solidário da humanidade (…). Por isso, sugerimos a busca de meios de organização e de cooperação, concretos e práticos, para pôr em comum os recursos disponíveis e realizar, assim, uma verdadeira comunhão entre todas as nações” (PP, 43). 

Recentemente, o Papa Leão XIV retomou o conceito de desenvolvimento integral, inserindo-o no debate socioambiental diante dos desafios que enfrentamos, e nos advertiu: “a qualidade do desenvolvimento mede-se pela sua capacidade de manter juntas, sem as separar, a justiça para com as pessoas e a salvaguarda da Casa comum, favorecendo condições de vida dignas, acesso aos bens essenciais, relações sociais justas, cuidado da criação e atenção às gerações futuras” (MH, 84). 

Há um sério risco de se gerar um pretenso desenvolvimento para uma pequena classe de privilegiados, deixando cair apenas migalhas para a enorme multidão de explorados e descartados da sociedade. Continua o Papa: “Daí se conclui que não é verdadeiro progresso o que aumenta o bem-estar de alguns degradando os ecossistemas, descarregando os custos nas comunidades mais vulneráveis ou prejudicando as condições de vida de quem virá depois de nós” (MH, 84). 

Como Igreja, desejamos que a história da humanidade seja uma história de prosperidade, justiça, dignidade humana, compromisso socioambiental, concórdia e paz. Queremos que todos os seres humanos trilhem o caminho do desenvolvimento integral. Com os Titãs, cantamos e parafraseamos: “a gente não quer só comida, quer comida, diversão e arte” (Comida). 

A gente não quer só emprego; a gente quer emprego, respeito e justiça social.  

A gente não quer só um ar de desenvolvimento; a gente quer ar sem cheiro de explosivos e de contaminação de grandes empresas; 

A gente não quer só propaganda enganosa e migalhas; a gente quer acesso ao direito à saúde pública e tratamento adequado para nossas crianças e pessoas atingidas pelas explorações. 

A gente não quer só emprego; a gente quer emprego e desenvolvimento sustentável para todos, especialmente para as famílias e comunidades impactadas por aqueles que dizem trazer o desenvolvimento para nossas cidades. 

A gente não quer moradia só para alguns privilegiados; a gente quer que todos tenham direito à moradia digna, sem rachaduras; com suas mesas e chão sem poeira geradas pelas mineradoras e queimadas da monocultura. 

A gente não quer apenas retirada de nossas riquezas, deixando buracos revirados; a gente quer respeito ao meio ambiente, aos territórios de nossas comunidades tradicionais, aos nossos rios, matas e animais. 

Continuando a citar Titãs: “A gente não quer só dinheiro. A gente quer dinheiro e felicidade. A gente não quer só dinheiro. A gente quer inteiro e não pela metade” (Comida). 

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                                                               Fonte: cnbb.org.br    Imagem: (@Vatican Media

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Leão XIV na abertura do encontro internacional

“Temos muito a aprender com as famílias”

Na abertura do encontro internacional pelos dez anos da Amoris laetitia, o Papa reafirma a beleza do plano de Deus para o matrimônio e a família, reconhece a “distância crescente” entre a forma como sexualidade e intimidade são vividas e a visão cristã do matrimônio e convida a Igreja a se interrogar sobre sua linguagem e suas práticas pastorais. “Conseguimos reconhecer a ação da graça mesmo em situações marcadas por limites, feridas e aparentes fracassos?”, questiona o Pontífice.

“Que tipo de Igreja as pessoas encontram precisamente quando estão mais frágeis?” A pergunta do Papa Leão XIV está no centro do desafio lançado nesta quarta-feira, 7 de outubro, na abertura do encontro “Dez anos após Amoris laetitia: anunciar o Evangelho com as famílias hoje”, que reúne no Vaticano hierarcas das Igrejas Orientais, presidentes de Conferências Episcopais, casais, especialistas e representantes da pastoral familiar. O encontro, que prossegue até 14 de outubro, tem caráter global e reúne 187 participantes dos cinco continentes. Entre eles está a delegação brasileira, composta pelo arcebispo de Porto Alegre e presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Jaime Spengler; pelo bispo de Ponta Grossa (PR) e presidente da Comissão Episcopal para a Vida e a Família, dom Bruno Elizeu; e pelo casal coordenador nacional da Pastoral Familiar, Alisson e Solange Schila.

Ao abrir os trabalhos na Sala Paulo VI, Leão XIV convidou os participantes a olhar para o caminho percorrido pela Igreja desde a publicação, há dez anos, da Exortação Apostólica Amoris laetitia, do Papa Francisco, e a discernir, à luz do Espírito Santo, o que essa experiência tem ensinado à Igreja sobre o matrimônio, a família e os novos desafios pastorais.

A família continua sendo fundamental

Ao recordar o percurso da Igreja desde o Concílio Vaticano II, o Papa destacou que a vida familiar oferece “um ponto de entrada privilegiado” para as grandes questões culturais, econômicas, sociais e políticas do nosso tempo, inclusive para a promoção da paz. Leão XIV reafirmou, ao mesmo tempo, a visão cristã do matrimônio:

“A interdependência dessas questões tornou-se ainda mais evidente hoje, sempre à luz da Palavra de Deus: ‘Deus os fez homem e mulher. Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe para se unir à sua mulher’ (Mc 10,6-7). A família continua sendo fundamental para uma abordagem que una o local e o global, guiada pela busca de uma fraternidade universal em Cristo, que o Evangelho nos chama a construir com todos.”

Para o Pontífice, os dez anos transcorridos desde a publicação de Amoris laetitia fazem agora parte da própria vida das Igrejas particulares, em diferentes culturas e contextos pastorais. O objetivo destes dias, explicou, é reunir as experiências vividas, as dificuldades encontradas e os frutos surgidos ao longo desse caminho.

Aprender a escutar

O Papa ressaltou que as próprias famílias participam da missão da Igreja na vida cotidiana, por meio do amor e da fidelidade, do cuidado e do perdão, da educação dos filhos, da transmissão da fé e da atenção aos idosos e às pessoas vulneráveis. Aos pastores, recordou a responsabilidade de proclamar “a beleza do plano de Deus para o matrimônio e a família e o seu apelo ao amor e à ternura”, sem deixar de acompanhar as pessoas nas circunstâncias concretas em que procuram viver sua vocação:

“Este ministério coloca-nos também numa escola de escuta. A sabedoria do Povo de Deus chega até nós através da nossa fé comum, que ilumina todas as famílias, incluindo as situações marcadas por dificuldades, solidão e, por vezes, até mesmo por um aparente fracasso. Temos certamente muito a aprender com as famílias e, quando dedicamos tempo a ouvir, o próprio Senhor pacientemente nos ensina.”

Sexualidade, intimidade e os jovens

Foi justamente a partir da experiência concreta das famílias que o Santo Padre apontou algumas das questões que, segundo ele, precisam ser enfrentadas “com coragem”. Entre elas, está a “distância crescente” que, em muitos contextos, se verifica entre as formas como a sexualidade e a intimidade são vividas e a visão cristã do matrimônio:

“Os jovens continuam a desejar o amor, a fidelidade e o sentimento de pertencimento, mas muitos têm dificuldade em compreender como essa visão do amor pode concretizar-se em suas próprias vidas ou em acreditar que um compromisso para toda a vida é a condição para alcançar aquilo que desejam. A insegurança econômica, a migração, a violência, a solidão e outras formas de fragilidade emocional também moldam as escolhas que as pessoas fazem e as possibilidades que conseguem imaginar para o seu futuro.”

Diante desse cenário, o Papa pediu que a Igreja não se limite a observar as transformações culturais, mas tenha a coragem de se deixar questionar por elas, inclusive sobre a capacidade de sua própria linguagem pastoral de alcançar as pessoas.

“Estas realidades suscitam uma série de questões que devemos enfrentar com coragem. O que as pessoas procuram verdadeiramente por trás dessas mudanças culturais? O que suas alegrias e esperanças, suas tristezas e angústias nos revelam? Em que aspectos nossa linguagem e nossas práticas pastorais conseguem abrir caminho e onde não conseguem tocar o coração das pessoas nem apoiar seus esforços para fazer o bem? O que nos ensina a experiência vivida pelas famílias — uma experiência da qual ainda não aprendemos plenamente? O que podemos oferecer em termos de formação para uma vida familiar saudável e santa? Em particular, o que podemos aprender com os pais, que procuram acompanhar seus filhos, e com os jovens nesses contextos?”

Uma Igreja próxima nas fragilidades

Outro ponto central do discurso foi a fragilidade. Segundo Leão XIV, ela pode marcar profundamente a maneira como uma pessoa olha para si mesma, para o futuro e até para sua relação com Deus e com a Igreja. Por isso, é preciso perguntar se somos capazes de permanecer próximos uns dos outros quando “a vida já não corresponde ao que se esperava” e de reconhecer a ação da graça mesmo em situações marcadas “por limites, feridas e aparentes fracassos”.

“Também a este respeito, a experiência das famílias tem algo a ensinar a todos, uma vez que a fragilidade pertence à nossa condição humana comum e, por isso, também à vida da Igreja. Todos conhecemos a distância entre o bem que desejamos e aquilo que somos capazes de viver. Precisamos de graça, perdão e novos começos para cumprir a vontade de Deus, e aprendemos que a fidelidade é, ela própria, uma graça a receber e um caminho a renovar gradualmente, muitas vezes através da provação.”

Foi nesse contexto que o Papa dirigiu à Igreja algumas das perguntas mais incisivas de seu discurso: “Que tipo de Igreja as pessoas encontram precisamente quando estão mais frágeis? Nossas comunidades ajudam-nas a descobrir que ainda têm um lugar, uma responsabilidade e dons para oferecer? A verdade que proclamamos pode ser encontrada através da paciência, da proximidade e da misericórdia da nossa presença pastoral? Como podemos anunciar-lhes a plenitude do ensinamento do Evangelho sobre a família?”

Novas formas de anunciar o Evangelho

Para o Santo Padre, a resposta a essas questões passa por uma Igreja capaz não apenas de interpretar a realidade, mas de permitir que ela interpele sua própria responsabilidade pastoral. O Espírito Santo, afirmou, fala também “através das próprias situações que nos desafiam”, ajudando a reconhecer como a misericórdia de Deus e a graça de Cristo podem alcançar as famílias em suas fraquezas, esperanças, desilusões e busca de sentido. A tarefa da Igreja, acrescentou o Papa, é encontrar “formas renovadas de proclamar o Evangelho, oferecer as graças sacramentais, acompanhar as famílias e tornar visível a ternura com que Cristo continua a caminhar entre o seu povo”.

Ao concluir, Leão XIV pediu que os dias de encontro sejam vividos na escuta, na oração e no discernimento, permitindo que as experiências provenientes dos diferentes contextos culturais ajudem toda a Igreja a reconhecer novos caminhos:

“Que o Senhor nos conceda a liberdade de nos ouvirmos uns aos outros, a sabedoria para reconhecer a sua obra entre o seu povo e a coragem para seguir por onde Ele nos conduz, para que, dia após dia, o Evangelho se torne cada vez mais plenamente uma boa notícia para as famílias em todo o mundo.”

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Assista:

Thulio Fonseca - Vatican News

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                                               Fonte: vaticanews.va   Imagens e vídeo: (@Vatican Media

Papa na catequese desta quarta:

ao adorar Cristo,
o fiel não pode aceitar opressão nem injustiça

Na Audiência Geral na Praça São Pedro, o Papa Leão comentou o quarto capítulo da Constituição Pastoral Gaudium et spes, que trata da missão da Igreja no mundo atual. Esta missão se realiza principalmente pelo testemunho da fé e da caridade, no empenho pela justiça, paz e fraternidade.

A missão da Igreja no mundo contemporâneo foi o tema da catequese do Papa Leão na Audiência Geral desta quarta-feira, 7 de outubro. O Pontífice retomou o ciclo sobre os documentos do Concílio Vaticano II, comentando esta semana o quarto capítulo da Constituição conciliar Gaudium et spes (GS).

LEIA A CATEQUESE

Nosso coração foi feito para olhar para o alto

Em primeiro lugar, o Concílio recorda que a Igreja não está "acima" nem "ao lado" do mundo, mas sim enraizada nele: "a Igreja é o mundo já reconciliado com Deus; somos peregrinos na terra e partilhamos com este mundo a fragilidade e a beleza", explicou o Santo Padre.

Como se lê na Magnifica humanitas, a missão eclesial tem um alcance histórico e implica responsabilidade no que diz respeito à maneira como se tecem as relações sociais. Assim, a primeira tarefa é ajudar as pessoas a estarem atentas às questões profundas da vida, sobre a nossa origem e destino, bem como sobre o sentido do amor e da dor: 

“A lógica do lucro a todo o custo e a manipulação da informação correm o risco de exercer uma pressão indevida para que as pessoas se conformem a um estilo de vida centrado no consumo de bens materiais, mas o nosso coração foi feito para olhar para o alto.”

Ao saudar os lusófonos, Papa confiou o povo brasileiro a Nossa Senhora Aparecida


O cristão não pode aceitar a injustiça

Os Padres do Concílio recordam ainda que a missão da Igreja se concretiza também na contribuição para a construção da cidade terrena. Não significa uma tarefa de natureza política, mas consiste no testemunho da fé e da caridade, juntamente com o empenho pela justiça, pela paz e pela fraternidade.

“Ao adorar Cristo, o Justo que morreu pelos injustos, o fiel não pode aceitar a opressão dos pequenos e dos pobres, nem as estruturas injustas que perpetuam condições de dependência e de injustiça.”

Para orientar a ação dos cristãos existe a Doutrina Social da Igreja. De modo especial, os leigos são chamados a animar o mundo com o espírito cristão e a visão do Evangelho, sobretudo na família e na atividade profissional. Isso exige, acima de tudo, coerência. Pois como recordam os Padres conciliares, o distanciamento entre a fé professada e a vida quotidiana "deve ser contado entre os mais graves erros do nosso tempo" (GS, 43).

Papa saúda a multidão

Anunciar com firmeza, sem se sujeitar às modas culturais

O desejo da Igreja, segundo expresso na Gaudium et spes,  é "poder desenvolver-se livremente sob qualquer regime que reconheça os direitos fundamentais da pessoa e da família e os imperativos do bem comum". Para isso, está sempre atenta ao que acontece e se desenvolve na sociedade, sem se deixar levar por modas culturais. "Com efeito, não é certamente diluindo os conteúdos e suavizando as exigências que se pode tornar o cristianismo atraente", acrescentou o Santo Padre.

O convite final do Pontífice aos fiéis é para que nos tornemos dóceis à ação do Espírito Santo, "para que Ele nos ajude a viver em santidade e caridade, de modo que o mundo possa acreditar e ter esperança".

Bianca Fraccalvieri - Vatican News

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                                              Fonte: vaticanews.va   Vídeo e imagens: (@Vatican Media

Catequese com o cardeal dom Odilo Pedro Scherer:

A pessoa está no centro

A pessoa humana deve estar no centro da vida social, política e econômica. Este é o princípio básico do ensino social da Igreja Católica, reafirmado desde o final do século 19. Na encíclica Magnifica humanitas, sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial (2026), o papa Leão XIV recordou esse e outros grandes princípios fundamentais para o desenvolvimento de um humanismo integral.

Dom Odilo Pedro Sherer

Essa preocupação justifica-se na era da inteligência artificial: bem mais magnífica do que todas as suas invenções e tecnologias, a pessoa humana não deve ser obscurecida por elas. É preciso salvaguardar a dignidade única de cada ser humano, não importando a sua condição social, econômica, étnica ou cultural. Em nada se pode ceder ao risco da desumanização, quer por mecanismos tecnológicos, quer, ainda mais, por tendências culturais, como o ódio cego, o fundamentalismo intolerante e o egoísmo insensível.

A dignidade da pessoa humana é o tema mais recorrente no ensino social da Igreja. Leão XIII escreveu na encíclica Rerum Novarum (1891): “A ninguém é lícito violar impunemente a dignidade do homem” (n.º 57). Essa dignidade não é outorgada pelo Estado ou pela sociedade, pois é inerente à própria natureza humana. O Estado e a sociedade têm a missão de a reconhecer e de velar por ela. É injusto e oprimente qualquer sistema que fere a dignidade da pessoa humana.

A subordinação da ordem social à ordem moral é um princípio fundamental do humanismo integral proposto pela Igreja: tudo e todos são regidos pela ordem moral, que expressa, em última análise, a ordem querida pelo Criador para as criaturas. Por isso, a convivência e todas as atividades humanas precisam ter sua referência na reta ordem moral, que pode ser conhecida pela razão. Os graves problemas sociais e políticos são sempre decorrentes de questões morais.

Também o princípio da solidariedade perpassa toda a doutrina social da Igreja. Todos dependem uns dos outros e também são responsáveis uns pelos outros. O papa Francisco desenvolveu este princípio na sua encíclica Fratelli tutti (2020), indicando a fraternidade universal entre as pessoas e os povos como base da solidariedade entre todos. Este princípio opõe-se a todas as formas de individualismo social ou político fechado e voltado apenas aos interesses privados. A edificação da ordem social necessita de justiça, mas também de amor fraterno.

O bem comum, outro princípio sempre presente nos documentos sociais da Igreja, se refere à promoção do bem de todos – indivíduos, grupos e povos. O papa João XXIII, na encíclica Mater et Magistra (1961), definiu o bem comum como o conjunto das condições sociais que permitem e favorecem o desenvolvimento integral das pessoas (ver n.º 65). Esse princípio se traduz na afirmação dos direitos humanos, na defesa e promoção da vida, da educação, do alimento, de moradia, entre outros. A promoção do bem comum cabe a todos, mas, sobretudo, ao Estado, pois é esse o motivo principal da existência da sociedade organizada e do Estado.

A prioridade do trabalho sobre o capital vem sendo afirmada desde a encíclica Rerum novarum, de Leão XIII (1891). Embora seja necessária a relação entre capital e trabalho, este representa a afirmação da pessoa, enquanto o capital é um bem instrumental. O trabalho está relacionado com a dimensão subjetiva do homem, que é o sujeito do trabalho e que se realiza e se expressa por meio dele. Leão XIV, na encíclica Magnifica humanitas (2026), reafirmou a preocupação com a salvaguarda da dignidade dos trabalhadores e do trabalho na atual transição digital.

A questão salarial, por sua vez, é acompanhada com atenção especial pelo magistério social da Igreja. Leão XIII já tratou do justo salário no contexto da grave questão operária decorrente da revolução industrial do século 19. Nem sempre o salário legal é também um salário justo, que deve ser suficiente para assegurar a subsistência digna do trabalhador. O trabalho humano não pode ser tido apenas como uma mercadoria, sujeita às leis do mercado.

A Doutrina Social da Igreja afirma o direito à propriedade privada de bens, inclusive dos meios de produção. Ao mesmo tempo, porém, ensina que a propriedade privada não é um direito absoluto e ilimitado. João Paulo II escreveu: “Os bens deste mundo são originariamente destinados a todos” e, por isso, também a propriedade privada possui uma função social: “Sobre a propriedade privada pesa uma hipoteca social” (ver encíclica Sollicitudo rei socialis, 1987, n.º 42).

Enfim, o cuidado da vida humana e da natureza é uma preocupação crescente na Doutrina Social da Igreja. O princípio da “casa comum” foi desenvolvido, sobretudo, a partir das encíclicas Caritas in veritate (2009), de Bento XVI, e Laudato si’, de Francisco (2015). O mundo da natureza é a casa e o ambiente da vida, que abriga, nutre e sustenta o homem e os demais seres. Nesse ambiente acontecem as relações humanas e o cuidado de uns pelos outros e pela casa, que é de todos.

Cardeal Odilo Pedro Scherer - Arcebispo Metropolitano de São Paulo

Publicado originalmente no jornal O ESTADO DE S.PAULO em 12 de setembro de 2026

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terça-feira, 6 de outubro de 2026

Leão XIV no prefácio do livro "Amor para sempre":

não tenham medo,
Deus chama os jovens ao grande amor do matrimônio
Leão XIV no tradicional encontro com os casais ao final da Audiência Geral das quartas-feiras

Os jovens "foram criados para o amor", escreve Leão XIV no prefácio do livro da Fundação YOUCAT, intitulado "Amor para sempre", que será apresentado em Roma nesta terça (06/10). E a forma de amor entre homem e mulher é verdadeiro, é um "sim profundo ao outro", uma aliança para a vida toda quando reflete Deus. A obra, inspirada pelo Papa Francisco, prepara casais ao matrimônio e ao chamado para esse "grande amor. Não tenham medo da sua profundidade", "não é perfeito, mas cresce à luz da fé".

O Papa Leão XIV escreveu o prefácio do novo "YOUCAT Amor para empre”, uma obra destinada a acompanhar os jovens na reflexão sobre o amor, os relacionamentos e o matrimônio à luz da fé católica. A apresentação internacional será nesta terça-feira, 6 de outubro, no Centro Internazionale Giovanile San Lorenzo de Roma, com a presença de representantes da Igreja e colaboradores envolvidos no projeto YOUCAT. Na programação da noite, celebração de missa presidida por dom John Joseph Kennedy, secretário do Dicastério para a Doutrina da Fé; apresentação de testemunhos e do próprio livro com o prólogo do Pontífice, em formato audiovisual, que agora propomos o texto na íntegra:

"Queridos jovens amigos,

O coração de vocês anseia por amor. Um amor que seja profundo, apaixonado e duradouro. Esse anseio não é por acaso. É sinal de que vocês foram criados para o amor. Santo Agostinho, cujo coração ardente, trespassado por uma seta, está representado no meu brasão, expressou-o desta forma: 'Inquieto está o nosso coração enquanto não repousar em Ti, ó Deus' (Confi ssões 1,1). Assim ele expressou o anseio pelo amor divino, que Deus realmente derrama em nossa alma quando estamos unidos a Ele. De fato, o próprio Deus pode estar presente no amor humano e transformá-lo. Então, Ele nos concede a capacidade de amar como Ele ama: no serviço, na generosa entrega de si mesmo e, quando necessário, no perdão. Pois Deus é amor e nos criou para amar – a Ele e às pessoas ao nosso lado.

Entre todas as formas de amor humano, o amor que existe entre homem e mulher ocupa um lugar especial. Ele pode atingir o coração como uma flecha – de forma intensa e rápida. Mas o amor verdadeiro não para por aí. 

Não é simplesmente um sentimento fugaz, que se acende só por um instante. É mais do que isso. É um “sim” profundo ao outro, uma decisão, um caminho e uma aliança para a vida toda. “O amor é autêntico e pode durar para sempre apenas quando reflete o esplendor eterno de Deus, que é amor (cf. 1Jo 4,8). Relacionamentos sólidos e fecundos constroem-se juntos, com base na confiança mútua, neste ‘para sempre’ que palpita em cada vocação à vida familiar e à consagração religiosa” (Discurso no encontro com jovens no Líbano). Esse amor pergunta, em primeiro lugar: “Como posso amar como Cristo amou?” (cf. Jo 15,12); e coloca em segundo plano a pergunta “O que recebo em troca?”.

No matrimônio, algo do próprio mistério de Deus se revela. Quando um homem e uma mulher se entregam totalmente um ao outro no amor, Deus ganha vida no meio deles. Sua fidelidade, seu perdão e sua luta diária pelo bem são um reflexo do amor de Cristo pela sua Igreja. Pode parecer um exagero romântico, mas é uma verdade profunda sobre a realidade: “Naquele que é um, somos um” (Agostinho, Comentário ao Salmo 127). Deus chama vocês, queridos jovens, a esse grande amor. Não tenham medo da sua profundidade! Pois o amor para o qual vocês são chamados é forte o suficiente para vencer as dificuldades; e grande o suficiente para sustentá-los por toda a vida. Não é perfeito, mas cresce à luz da fé. O amor verdadeiro é um dom de Deus e não podemos simplesmente criá-lo. Enquanto o amor humano muitas vezes é manchado por desejos egoístas, o amor de Deus, pelo contrário, é altruísta, longânime, paciente e possui todas as maravilhosas qualidades que Paulo elenca na Carta aos Coríntios (cf. 1Cor 13).

A imagem mais bela do amor verdadeiro é vista quando contemplamos a cruz de Jesus Cristo. Ele nos amou tanto que se dispôs a morrer por nós. Esse é o “DNA” do cristianismo, o mandamento de Cristo: “Amem-se uns aos outros, assim como eu amei a vocês. Ninguém tem amor maior do que alguém que dá a vida pelos amigos” (Jo 15,12-13).

Este livro, YOUCAT – Amor para sempre, quer acompanhá-los nesse caminho. Jovens como vocês, de mais de 30 países diferentes, deram aqui testemunho de que o ideal para o qual Cristo nos chama é um tesouro fascinante. O livro convida vocês a abrirem o coração a um projeto que é maior do que qualquer sonho humano. Ele serve como preparação para um “sim” que não é para apenas um dia, mas para a vida toda – um “sim” que, como o amor de Deus, é incansável e fiel.

Rezo por vocês que leem este livro, uma obra inspirada pelo nosso amado papa Francisco. Que Jesus Cristo agite o coração de vocês até que nele encontrem descanso. Que o Espírito Santo seja a luz e a força de vocês. E que, como Maria, a Mãe do Belo Amor, vocês respondam com confiança e coragem à mais bela de todas as vocações: a vocação ao amor."

A capa do livro que leva o prefácio do Papa Leão XIV



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                                                            Fonte: vaticanews.va   Imagens: (@Vatican Media