cartilha “Cuidar da Vida” sobre prevenção ao suicídio
A Comissão Episcopal para a Juventude da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) oferece a cartilha Cuidar da Vida revisada e atualizada. O material oferece subsídios para agentes de pastoral, educadores e lideranças que desejam desenvolver ações de prevenção do suicídio e promoção da vida entre adolescentes e jovens.
A iniciativa, aprovada pela CNBB e proposta pela Comissão Episcopal para a Juventude, nasceu da preocupação com a realidade enfrentada pelas novas gerações e da necessidade de preparar lideranças para reconhecer situações de sofrimento, promover a escuta e fortalecer redes de cuidado.
Desde 2024, o projeto vem percorrendo diferentes regiões do país, formando multiplicadores para a prevenção do suicídio e a promoção da vida. As formações presenciais passaram por Cuiabá (MT), Manaus (AM), Recife (PE), Rio de Janeiro (RJ), Imperatriz (MA) e São Paulo (SP), reunindo participantes de diferentes regionais da CNBB.
Em janeiro de 2025, uma edição especial foi realizada em Nova Santa Rita (RS), ampliando esse processo de formação. Ao todo, 193 participantes foram capacitados nas sete edições realizadas. A proposta é que esses agentes levem os conhecimentos adquiridos para suas dioceses, pastorais, grupos e movimentos juvenis e também para os espaços educacionais. Uma formação que se multiplica
Projeto Cuidar da Vida
O projeto Cuidar da Vida foi desenvolvido em parceria com a Pastoral Juvenil e a Pastoral da Educação, contando também com a colaboração voluntária de psicólogos e educadores católicos que unem conhecimento profissional e experiência pastoral.
A formação busca preparar lideranças para atuar na prevenção do suicídio entre adolescentes e jovens, especialmente nos ambientes onde eles vivem, estudam, convivem e desenvolvem sua experiência de fé.
A ideia de multiplicação está no centro da proposta. Quem participa da formação é chamado a compartilhar os conhecimentos em sua realidade local, ampliando uma rede de pessoas preparadas para promover o cuidado, identificar sinais de sofrimento e encaminhar situações que necessitem de acompanhamento especializado.
Dessa forma, o projeto não se limita às pessoas que participaram diretamente das formações. Cada multiplicador torna-se uma ponte para que o cuidado chegue a novas comunidades e grupos.
A cartilha: fruto de um caminho pela vida
É nesse contexto que a Comissão Episcopal para a Juventude disponibiliza a edição revisada e atualizada da cartilha Cuidar da Vida.
O material oferece subsídios para agentes de pastoral, educadores e lideranças que desejam desenvolver ações de prevenção do suicídio e promoção da vida entre adolescentes e jovens.
A cartilha também contempla o cuidado e o consolo às pessoas e famílias que enfrentam a perda de alguém por suicídio, reconhecendo que a atenção não termina diante da perda, mas continua no acolhimento daqueles que permanecem.
Mais do que um material de consulta, a publicação representa a continuidade de um trabalho que vem sendo construído em diferentes partes do Brasil. A cartilha é fruto de um caminho de formação e uma ferramenta para que esse caminho continue se multiplicando.
Cuidar da vida é missão permanente
A promoção da vida das juventudes é uma responsabilidade que ultrapassa o mês de setembro. O Setembro Amarelo contribui para ampliar a conversa sobre prevenção do suicídio, mas o cuidado precisa estar presente durante todo o ano, nos espaços de convivência, nas comunidades, nas escolas, nas famílias e também na vida pastoral.
Ao incentivar a formação de multiplicadores, a Igreja no Brasil busca fortalecer comunidades capazes de acolher, escutar e acompanhar adolescentes e jovens em suas diferentes realidades.
O projeto Cuidar da Vida expressa, assim, uma escolha: estar ao lado das novas gerações e trabalhar para que cada vida seja cuidada e valorizada.
A Comissão Episcopal para a Juventude convida dioceses, paróquias, comunidades, pastorais, movimentos, escolas e demais espaços que acompanham adolescentes e jovens a conhecerem e utilizarem o material.
Cartilha “Cuidar da vida – Prevenção de suicídio entre adolescentes e jovens”Baixar
Baixe AQUI gratuitamente a cartilha “Cuidar da Vida – Prevenção do Suicídio entre Adolescentes e Jovens” e ajude a multiplicar essa rede de cuidado e promoção da vida.
países como Rússia e Ucrânia devem sentar-se para dialogar
Durante o voo de
Metz para Roma, ao conversar com os jornalistas, Leão XIV falou sobre os
conflitos e os interesses econômicos que os sustentam: “A Igreja continua a
levantar a voz, anunciando o Evangelho. Poucos estão enriquecendo com a
indústria bélica; com esses bilhões, seria possível resolver problemas como a
fome no mundo”.
No voo de
retorno a Roma, após quatro dias de Viagem Apostólica à França, Leão XIV
conversou com os jornalistas que o acompanharam durante a visita. Em um balanço
da peregrinação, o Papa destacou os momentos vividos em Lourdes e o encontro
com 80 mil jovens no Stade de France, em Paris, como experiências marcadas pela
esperança, pela fé e pela proximidade com pessoas que sofrem. “Os quatro dias
foram literalmente repletos de muitas bênçãos”, afirmou, recordando
especialmente os doentes, os idosos e aqueles que são marginalizados pela
sociedade.
Na conversa,
Leão XIV também respondeu a questões sobre os abusos sexuais na Igreja, a
defesa da vida e o fim da vida, o problema da habitação, as guerras entre
Rússia e Ucrânia, os gastos com armamentos, os riscos relacionados à
inteligência artificial e a situação da Igreja na Alemanha. Ao longo das
respostas, o Papa reafirmou a missão da Igreja de anunciar o Evangelho,
defender a dignidade humana e promover o diálogo, a paz e o cuidado com os mais
vulneráveis.
Matteo
Bruni: Boa noite, Santidade. Obrigado por estes dias de viagem, por esta
viagem tão intensa. Era, certamente, uma viagem muito aguardada, que deixou
muitos franceses felizes com a sua presença e com as suas palavras. Penso que,
com suas palavras, o senhor também tocou em aspectos profundos da alma do povo
francês. E acredito que tenha feito felizes também muitos católicos, muitos
cristãos, que se sentiram confirmados na fé. Talvez o senhor possa começar nos
dizendo como viveu esta viagem.
Depois, se
precisarem de tradução, poderemos ajudá-los. Antes de tudo, mais uma vez,
obrigado pelo trabalho que vocês realizaram. Penso que estiveram bastante
ocupados nestes últimos quatro dias e, de certo modo, foi um programa muito
intenso. Os quatro dias foram literalmente repletos de muitas bênçãos. Eu
diria até de quase milagres, especialmente o tempo passado em Lourdes,
caminhando com tantas pessoas doentes e sofredoras, acompanhando-as, e vendo
como a graça da presença de Deus se manifestou de tantas maneiras diferentes:
tocando o coração das pessoas, transformando suas vidas e, para usar uma
expressão que mencionei ali, devolvendo dignidade aos doentes, aos idosos e
àqueles que, em algumas partes da sociedade, são descartados. Assim, foram
muitos os sinais, as expressões e os símbolos ao longo desses quatro dias. E,
pessoalmente, senti-me muito abençoado pelo privilégio de visitar a França e,
sobretudo, de encorajar os jovens, que evidentemente estão à procura de alguma
coisa. Isso ficou muito evidente no estádio, naquela noite em que 80 mil
jovens, vindos de toda a França, se reuniram. Seu entusiasmo, sua alegria e o
sentimento de esperança que transmitiram foram muito marcantes. Mas, sobretudo,
penso que eles próprios receberam essa esperança e poderão compartilhá-la com
outros. Portanto, entre as muitas coisas que celebramos e vivemos durante
esses quatro dias, eu diria que esses foram alguns dos momentos mais marcantes.
Sem excluir os outros, é claro, mas considero esses particularmente significativos. Estou
muito feliz por ter tido vocês comigo nesta viagem. E, se tiverem algumas
perguntas...
Cyriac Zeller
(I.Media): Boa noite, Santidade. Ontem, durante uma coletiva de imprensa,
as vítimas que o senhor encontrou nos disseram que o senhor havia reconhecido
diante delas o caráter sistêmico dos abusos sexuais na Igreja. É realmente essa
a sua posição? Poderia explicar melhor seu ponto de vista? O senhor considera
que os abusos sexuais na Igreja são sistêmicos?
Eu diria — sem
querer contradizer ninguém, porque considero isso muito importante — que, antes
de tudo, gostaria de dizer que, ao me encontrar com aquelas sete vítimas, pedi
a elas que também me ajudassem a transmitir a outras vítimas a disposição,
tanto minha quanto da Igreja, de escutá-las e de caminhar com elas enquanto
buscam a cura, reconhecendo a dor que as situações de abuso causaram em suas
vidas. Várias delas falaram de abuso sistêmico. Pessoalmente, prefiro
expressá-lo de outra maneira, embora tenha falado de algumas organizações
dentro da Igreja que, em determinados momentos, funcionaram, por assim dizer,
como sistemas abusivos.
Mas penso que é
importante fazer uma distinção. O abuso sexual é, antes de tudo, um problema
humano. Quando acontece dentro da Igreja, porém, acrescenta-se uma dimensão
completamente diferente, porque a vida de fé das pessoas é profundamente ferida
e, às vezes, até destruída. Existe uma responsabilidade particular da
Igreja de caminhar com essas pessoas e ajudá-las a buscar a cura. Nesse
sentido, falei com elas sobre como a Igreja, de certas maneiras, foi vista como
responsável, mas, ao mesmo tempo, penso que a própria Igreja tem um papel
importante a desempenhar para ajudá-las a encontrar o caminho da cura.
Xavier Normand
(Le Pèlerin): Santíssimo Padre, boa noite. Antes de tudo, gostaria de
agradecer pela sua viagem apostólica à França. Durante quatro dias, nosso país
viveu ao ritmo do entusiasmo geral provocado pela sua visita. O que, na França,
é um feito. Muito obrigado, Santíssimo Padre. O lema de sua viagem
apostólica foi “Para que o mundo tenha vida”. O tema dos cuidados no fim da
vida apareceu repetidamente em seus discursos. Na verdade, penso que o senhor o
mencionou em mais da metade de seus discursos na França. Penso, em
particular, no discurso no Palácio do Eliseu e no de ontem, em Lourdes, quando
o senhor afirmou que aquilo que é legal não é necessariamente moral — uma
referência clara à recente legalização da eutanásia na França. Na França,
temos também o princípio da laïcité, que estabelece uma separação entre
religião e política. O senhor considera que, quando algo é importante, quando
os interesses em jogo são elevados, essa fronteira, essa linha, deve ser
ultrapassada em nome da primazia da consciência? E, nesse caso, o senhor
ultrapassou essa linha?
Obrigado pela
sua pergunta. Eu diria que, segundo a compreensão que a Igreja tem da separação
entre Igreja e política, ou entre Igreja e Estado, eu não ultrapassei essa
linha. E convido vocês a lerem ou relerem Magnifica Humanitas, onde falo sobre
a Doutrina Social da Igreja na primeira seção, nos dois primeiros capítulos, e
afirmo que, quando a Igreja fala sobre a defesa da vida ou sobre questões da
Doutrina Social, não está entrando na política; está aplicando o Evangelho à
vida das pessoas. E podem existir políticos, se assim quisermos dizer,
tanto de esquerda quanto de direita, que afirmam: “A religião deve permanecer
apenas na esfera privada”. Que cada um faça o que quiser em sua vida pessoal,
mas, enquanto Estado, precisamos manter essa separação. Ora, justamente
por isso, quando fui à França, fui principalmente para anunciar o Evangelho,
para proclamar a Boa-Nova, para reafirmar aquilo que o próprio Jesus Cristo diz
quando afirma: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Ou seja, para proclamar
a verdade que Jesus nos oferece. A defesa da vida é algo que, como todos
vocês sabem, a Igreja ensina e no qual acredita profundamente. Por isso, por um
lado, evidentemente sabendo que na França uma lei foi recentemente aprovada — e
que também em outros países da Europa, assim como em outras partes do mundo, há
um amplo debate sobre as questões relacionadas ao fim da vida —, é preciso
considerar essa realidade. Mas estar em um lugar como Lourdes, onde as
pessoas estão em busca de algo muito mais profundo, significa compreender que
suas vidas, mesmo em meio à doença, à deficiência ou a diferentes formas de
sofrimento, têm um sentido. A Igreja, por causa do próprio Jesus, quer estar
próxima dessas pessoas e afirmar os valores que a própria vida, penso eu,
representa para todos nós. Portanto, eu diria que, se isso é política,
então eu a fiz. Mas não foi para me envolver na política francesa. Foi para
ensinar aquilo em que a Igreja realmente acredita.
Íñigo Domínguez
(EL PAÍS) Obrigado, Santo Padre, por compartilhar este momento conosco. O
senhor já falou muitas vezes, inclusive nesta viagem, sobre a cultura do
descarte que nos cerca e sobre a marginalização daqueles que não são
considerados produtivos, entre eles os idosos e as pessoas com deficiência. Na
Espanha, temos atualmente um caso que representa um pouco tudo isso e que
causou grande indignação no país: o de Mari Carmen, uma mulher de 87 anos com
deficiência que foi despejada de sua casa, em Madri, porque não conseguia pagar
o aluguel. O valor do aluguel foi aumentado cinco vezes de uma só vez. Não sei
se o senhor conhece esse caso, o caso de Mari Carmen. Mas, de qualquer forma, o
que o senhor acha do problema da moradia que existe em toda a Europa, em todo o
mundo, onde a especulação imobiliária expulsa os moradores das cidades e os
jovens não têm condições de comprar uma casa? O que o senhor acha de todo esse
problema?
Acredito que
esse seja um bom exemplo de que a Igreja, como comunidade — ou nós, como seres
humanos, como comunidade, mesmo para pessoas que não têm fé —, precisamos
buscar soluções mais justas para que casos como esse não ocorram. Não conheço o
caso ao qual o senhor se refere, mas me parece que seria um caso em que os
vizinhos, a comunidade, a paróquia, a diocese ou o Estado teriam que se
manifestar e perguntar: como é possível que algo assim aconteça? Qual é o
problema no sistema que permite que uma idosa, além de ter deficiência ou
alguma dificuldade, seja, digamos, expulsa de sua casa? A Igreja fala muito
sobre a exclusão e também sobre justiça. Ela convida, promove e busca, digamos,
despertar em todos a capacidade de responder com um senso mais humano, de ser
verdadeiramente sensível à dor e ao sofrimento dos outros. O problema da
moradia, que existe em muitos países hoje, é um problema que uma paróquia
sozinha, uma diocese sozinha ou a própria Igreja não poderão resolver. Mas
acredito que há aí um grande desafio, no qual talvez tenhamos que exigir também
dos líderes políticos e das autoridades que busquem uma solução para isso. Pois
é evidente que o problema está aumentando, e muitas vezes reagimos apenas no
momento da emergência, mas precisamos realmente identificar qual é a causa
sistêmica desse problema e como ajudar.
Manuela Tulli
(ANSA) Boa noite, Santidade. Hoje, e ao longo de toda esta viagem, o
senhor enfatizou a necessidade do diálogo e, ao se dirigir à Europa, falou da
ilusão do rearmamento, mas, ao mesmo tempo, disse que é preciso ter coragem
para fazer renúncias e sacrifícios em prol do bem maior da paz. O conflito na
Europa é aquele entre a Rússia e a Ucrânia; o que o senhor quis dizer ao falar
desses sacrifícios? Além disso, o senhor acredita na negociação, pois enviou
seus representantes — primeiro foi dom Gallagher e, nestes dias, está lá o
Cardeal Zuppi —, mas como é possível dialogar com um Estado que agride,
bombardeia e ameaça não apenas a Ucrânia, mas também outros países europeus?
Obrigada.
A primeira coisa
seria destacar os princípios da doutrina social da Igreja, na qual buscamos não
promover a violência, o ódio, o armamento e os perigos que existem no mundo de
hoje, inclusive por parte de alguns líderes de países que voltam a falar de armas
nucleares e de guerras cada vez mais destrutivas, sobretudo no que diz respeito
à questão da vida humana. Continuar a se armar, a gastar nessa tremenda
indústria militar, que já há muitas décadas — desde o ano passado, há cinco
anos — continua promovendo os gastos militares. Alguns poucos estão
enriquecendo enormemente com uma indústria que promove a guerra. Quando, com
esses milhares de milhões de milhões de euros ou dólares, seria possível
resolver problemas como a fome no mundo, a pobreza, o desemprego, etc. Todos
estão buscando uma voz que possa oferecer outro caminho, que não seja o de
“vamos gastar mais em armas”, o que apenas promove cada vez mais a tensão que
poderia resultar na eclosão de outra guerra, outro conflito. E vemos que a
violência, que essas potências que buscam sempre impor com o poder em vez de
dialogar e promover negociações sobre as diferenças que naturalmente podem
existir, nos leva cada vez mais perto de uma guerra ou de várias guerras,
conflitos como os que encontramos no mundo de hoje. Não sei quanto aos outros,
e não é por ser político ou não político, mas uma voz que tenta promover os
valores da dignidade humana, da importância da vida, da possibilidade de,
talvez, gastar mais com saúde e educação e menos com armas, acredito que a
Igreja tem a responsabilidade de promover esses valores, convidando
continuamente líderes da Rússia, da Ucrânia e de outros países a virem,
sentarem-se, dialogarem e buscarem soluções para os problemas sem dar
continuidade a essas guerras que já não fazem sentido. Portanto, nesse sentido,
a Igreja continua levantando a voz. Não podemos obrigar ninguém; às vezes
parece que isso pode ser inútil, mas vamos continuar falando, vamos continuar
convidando, vamos continuar anunciando o Evangelho.
Justin McLellan
(National Catholic Reporter) Em Paris, o senhor falou sobre a necessidade
urgente de um discernimento ético em torno do desenvolvimento da Inteligência
Artificial e, após vários ataques cibernéticos realizados por agentes de IA
fora de controle, diversos líderes da indústria tecnológica alertaram que essa
tecnologia poderia destruir o mundo. Até que ponto o preocupa a possibilidade
de a IA representar riscos catastróficos para a humanidade ou até mesmo
extingui-la por completo? E o que as nações, especialmente os Estados Unidos e
a China, devem fazer para garantir que suas tecnologias sejam seguras para a
humanidade?
Se alguém me
perguntasse: “Estou em pânico?”. Não, não estou. Durmo tranquilamente à noite.
Mas penso, sim, que as preocupações levantadas por muitos especialistas em
Inteligência Artificial devem ser levadas a sério. Não penso que isso seja fake
news, como alguns disseram, com o objetivo de obter algum tipo de benefício,
seja financeiro ou de outra natureza. É interessante observar que justamente
hoje li que o responsável pela NVIDIA afirma ter encontrado alguma maneira de
inserir na IA certas salvaguardas, por assim dizer, ou limites, para que esses
sistemas não ultrapassem seus próprios limites e causem os danos sobre os quais
as pessoas estão falando. No entanto, ele é o mesmo que diz que não deveriam
ser impostos limites nem regulamentações governamentais, etc. Esse é um
problema sobre o qual penso que precisamos sentar e conversar. Precisamos
continuar convidando líderes políticos, responsáveis pelo setor da Inteligência
Artificial, organizações sociais e associações a se reunirem e analisarem aquilo
que já está acontecendo e aquilo que poderá acontecer no futuro. Simplesmente
dizer: “Ah, isso não vai acontecer”, e fechar os olhos para a questão, penso
que provavelmente não seja a maneira mais responsável de lidar com isso. O
Vaticano criou sua própria comissão sobre Inteligência Artificial que, por um
lado, por assim dizer, surgiu como uma maneira de coordenar aquilo que nós
mesmos estamos fazendo na Santa Sé, como estamos utilizando a IA e quais são os
seus riscos e benefícios. Mas, desde a publicação da Magnifica Humanitas,
recebemos muitos contatos de pessoas de diversas áreas e setores. Por isso,
estamos procurando continuar promovendo o diálogo, o estudo e a pesquisa, a fim
de encontrar maneiras de garantir que a IA não chegue a um ponto em que possa
destruir a humanidade ou excluir o ser humano da discussão. Sou relativamente
otimista de que isso seja possível. Penso que há um número suficiente de
pessoas seriamente interessadas nessa questão e dispostas a olhar para além,
mais uma vez, das questões de poder: quem chegará primeiro, o que acontecerá
quando a IA alcançar aquilo que chamam de Inteligência Artificial Geral, e
assim por diante. Mas precisamos continuar trabalhando. Não podemos ficar de
braços cruzados e fingir que nada vai acontecer.
Ludwig
Ring-Eifel (KNA) Hoje estivemos em Metz, muito perto da fronteira alemã, mas,
até agora, o senhor ainda não foi à Alemanha. Portanto, minha pergunta básica
é: quando podemos esperá-lo do outro lado da fronteira? E isso tendo como pano
de fundo dois fenômenos que talvez também o preocupem: o declínio constante da
Igreja Católica na Alemanha e o surpreendente crescimento de partidos
extremistas no país, que ameaçam romper o consenso em torno da Europa, sobre o
qual o senhor falou hoje em Metz.
Com toda a
humildade, direi que sou Papa há apenas cerca de quinze meses. Há muitos
lugares que ainda não visitei. Tenho, sim, um convite. Espero voltar à Alemanha
— quero dizer, já estive lá antes, mas não como Papa — e espero visitar a
Alemanha, assim como espero visitar muitos outros lugares. Mas ainda não tenho
uma programação definida. Ainda estou trabalhando na agenda do próximo ano, e a
única viagem definitivamente programada é a Jornada Mundial da Juventude, na
Coreia. Portanto, aos poucos estamos chegando lá. Mas obrigado pela paciência e
pela pergunta. Sobre a expressão que o senhor usou, de que “a Igreja está
morrendo na Alemanha”, ou sobre a diminuição dos números: as pessoas já
disseram isso sobre a França no passado e, no entanto, vimos o que aconteceu ao
longo destes últimos quatro dias. Acredito que, se encontrarmos o verdadeiro
espírito missionário e a maneira adequada de colocá-lo em prática, ainda
existem muitas, muitas pessoas na Alemanha que desejam viver e celebrar sua fé
cristã e católica. Portanto, sou otimista em relação a isso, embora reconheça
os problemas e as diferentes causas que atingiram duramente a Igreja. Mas isso
também atingiu duramente — por assim dizer — a Igreja evangélica ou protestante
e afetou a sociedade praticamente da mesma maneira. Mas espero poder me
aproximar dessa realidade. Espero continuar trabalhando com os responsáveis
pela Igreja na Alemanha e encontrar maneiras de responder a essa situação.
Seria interessante estudar e analisar se existe, e de que maneira poderia
existir, uma relação, por exemplo, entre o crescimento desses grupos de extrema
direita. A própria extrema direita está se fragmentando agora, como se pode
observar: um determinado grupo está se tornando ainda mais extremista em
relação a outros grupos considerados de extrema direita. Ao mesmo tempo, vemos
também algumas manifestações que combinam essas posições de extrema direita com
um determinado tipo de religião. E não é apenas a minha opinião: tanto os
líderes da Igreja Católica quanto os da Igreja Protestante na Alemanha já se
pronunciaram a respeito, afirmando que isso não constitui uma expressão
autêntica do cristianismo. E, mais uma vez, voltamos aos valores do Evangelho,
que não são valores de ódio e divisão, mas de compreensão, compaixão e
acompanhamento.
Espero
profundamente — e espero que a Igreja também possa contribuir para isso — que
possamos encontrar maneiras de nos aproximar da maioria das pessoas de boa
vontade, que compreenderão a importância de seu compromisso, inclusive por meio
da participação nos processos políticos, para que possam fazer escolhas claras
em favor do bem comum, e não de ideias extremistas que talvez possam causar
danos muito maiores do que aqueles dos quais temos consciência neste momento.
Portanto, penso que todos nós devemos encorajar nessa direção. Mais uma vez, de
nossa parte, como Igreja, por meio da Doutrina Social da Igreja, cabe-nos
falar, ensinar e pregar aquilo que acreditamos serem valores que promovem a
vida, e não a destruição, a divisão e o ódio.
O Papa concluiu
a conversa com os jornalistas acrescentando algumas palavras de agradecimento:
Quero aproveitar
esta oportunidade para agradecer às tantas pessoas que trabalham nos
bastidores, que não recebem os aplausos que o Papa recebe quando passa, mas que
desempenharam um papel fundamental na organização desta viagem: tanto as
pessoas na Santa Sé quanto as pessoas na França, os bispos franceses e tantos,
tantos leigos que trabalharam nas diferentes atividades e em sua organização.
Quero, portanto, dirigir uma palavra especial de gratidão a todos eles e também
a vocês. Muito obrigado.
Há alguns anos
estive na beatificação da, hoje, Santa Dulce dos Pobres.
Havia lá
católicos, evangélicos, ateus, gente sem religião, mas todos reconheciam o amor
que ela devotava aos pobres.
Segui a
cerimônias de beatificação do arcebispo Fulton Sheen. Eu o seguia pela
televisão quando estudei nos Estados Unidos. Era um fenômeno de comunicação
católica. Foi um dos pioneiros da televisão e do rádio católico.
Agora, segui a
missa de beatificação de três padres martirizados pelos alemães nos anos 1930.
Um deles era o dehoniano padre Martino.
Beato Fulton Sheen
Ele sabia que
seria morto, mostrou-se pronto para o martírio. Gostava de pobres, era a favor
da democracia, e não aceitava nenhuma invasão do seu país. Foi lá consolar as
famílias massacradas pelo invasor! Foi preso por ir consolar os enlutados. Foi
assassinado dois dias depois.
E fez isto sem
nenhum ódio.
***
Qual a conclusão
dessas canonizações beatificações? É que a igreja considera heroico quem viveu
pelos pobres, viveu pela comunicação, e viveu pelo seu povo. E, tudo isso, sem
ódio nenhum por quem os odiava. É possível discordar sem odiar e defender-se
sem ofender.
Quem amou desse
jeito está no céu e merece ser admirado e venerado. Não os adoramos, mas
prestamos homenagem a quem viveu pelos outros e pelo seu povo!
Eis o milagre
deste lugar: suscitar a alegria da esperança mesmo no meio das provações e da
dor. A Virgem Maria cura os nossos olhares e transfigura os nossos corações,
dando-lhes a paz. Sede testemunhas ativas desta força e desta ternura divinas,
que nos permitem continuar o caminho e alcançar a meta, nos vossos países,
dioceses e famílias. Foi a exortação do Papa aos fiéis e peregrinos na Missa
celebrada na manhã deste domingo (27/09) no Santuário de Nossa Senhora de
Lourdes, na França.
No segundo
compromisso de seu penúltimo dia na França, o Santo Padre presidiu este
domingo, 27 de setembro, à Santa Missa no Santuário de Nossa Senhora de
Lourdes, cujo centro mariano recebe todos os anos milhões visitantes
provenientes de mais de 140 países do mundo inteiro partilhando histórias e
esperanças. Dos mais de sete mil dossiês de curas depositados, após as
Aparições de Nossa Senhora a Santa Bernadette Soubirous em 1858, a Igreja
reconhece 72 casos como milagres ocorridos neste lugar.
“Apoiados pela
oração dos doentes e pelo amor da nossa Mãe, caminhai com confiança rumo ao
futuro. Não temais as tempestades do mundo: a Santa Mãe de Deus vigia sobre o
vosso caminho, envolve a Igreja no seu manto de ternura e, como Estrela radiosa
da manhã, guia os vossos passos para vos gerar, com alegria, na própria vida do
seu Filho Jesus” disse o Papa na homilia da celebração dirigindo-se aos
peregrinos.
Irmãos e irmãs,
peregrinos vindos da França e de todo o mundo, ao olhar para vós esta manhã,
reunidos na casa da nossa Mãe, vejo o rosto universal da Igreja. Alguns de vós
atravessastes continentes, superastes fadigas, trouxestes as vossas alegrias e
os vossos fardos até esta Gruta sagrada. Que felicidade estarmos juntos, um só
coração, uma única família!
O convite à
conversão
O Pontífice
ressaltou que os textos propostos pela Liturgia dominical abordam um aspecto
central da mensagem que a Virgem Maria veio confiar a Santa Bernadette e sobre
o qual Leão XIV desenvolveu boa parte de sua reflexão, ou seja, o convite
à conversão, ao mesmo tempo terno e urgente.
É hoje – não
amanhã – que é preciso converter-se; é hoje o momento favorável, o dia da
salvação. Sim, observou, “Deus deseja que o homem viva, que abra os olhos e
volte para Ele”. Converter-se é abandonar os caminhos do erro para seguir o
Caminho da Vida, abrindo assim o nosso coração à única Alegria que não passa,
acrescentou.
O próprio Jesus
não mede palavras quando exorta à penitência, como nos relata, por exemplo, São
Lucas: «se não vos converterdes, perecereis todos» (Lc 13, 5). Mas Ele alarga o
horizonte da vida terrena ao da vida eterna. “Enquanto a felicidade aqui na terra
é uma realidade efémera, relativa e, por vezes, infelizmente inacessível para
alguns, a verdadeira felicidade é prometida a todos, na esperança, e deve ser o
principal objeto da nossa busca, dos nossos esforços e das nossas escolhas”,
destacou.
A Igreja é
chamada a viver a conversão em primeiro lugar
O Santo Padre
afirmou que neste momento da história, no seio de uma sociedade em busca de
progresso e bem-estar material, mas por vezes tentada a esquecer o horizonte da
eternidade, “Maria vem lembrar-nos a grandeza e a amplitude da nossa vocação
para a vida, para a vida eterna”.
“Perante as
correntes atuais que procuram redefinir o valor da vida humana face à doença,
ao sofrimento ou à velhice, a Gruta de Massabielle ergue-se como um santuário
da esperança cristã. Aqui, nenhuma fragilidade é rejeitada. As vossas muletas,
as vossas cadeiras de rodas, as vossas lágrimas escondidas não são obstáculos:
são o lugar por excelência onde sois plenamente respeitados, acolhidos e
transcendidos pelo amor infinito de Deus.”
Leão XVI lembrou
que encontramos o apelo insistente à conversão nas palavras que Maria proferiu
ali mesmo: “Penitência! Penitência! Penitência!” Ressaltou, em seguida, que
esta exigência de conversão envolve a própria Igreja na sua peregrinação
terrena. “Ela deve ter a coragem de viver essa conversão em primeiro lugar.
Para curar as feridas profundas, as infidelidades e os dolorosos desvios
cometidos no seu seio, devemos submeter-nos humildemente ao olhar purificador
do Senhor”.
Caminhai com
confiança rumo ao futuro
O apelo da nossa
Mãe ao nosso dever de oração e conversão enche-nos de grande esperança, pois
ela indica-nos o meio de mudar o curso das coisas, meio esse que não é outro
senão o de nos associarmos à paixão de Cristo, prosseguiu o Pontífice.
“Peregrinos,
irmãos e irmãs, não partireis de Lourdes como chegastes: partireis como
missionários da esperança”, foi a exortação do Santo Padre antes de concluir
sua reflexão, com olhar voltado para a Virgem Maria, nossa Mãe Santíssima.
Eis o milagre
deste lugar: suscitar a alegria da esperança mesmo no meio das provações e da
dor. A Virgem Maria cura os nossos olhares e transfigura os nossos corações,
dando-lhes a paz. Sede testemunhas ativas desta força e desta ternura divinas,
que nos permitem continuar o caminho e alcançar a meta, nos vossos países,
dioceses e famílias. Apoiados pela oração dos doentes e pelo amor da nossa Mãe,
caminhai com confiança rumo ao futuro. Não temais as tempestades do mundo: a
Santa Mãe de Deus vigia sobre o vosso caminho, envolve a Igreja no seu manto de
ternura e, como Estrela radiosa da manhã, guia os vossos passos para vos gerar,
com alegria, na própria vida do seu Filho Jesus.
Não são poucos os cristãos que acabam por instalar-se comodamente em sua fé, sem que sua vida se veja afetada. Poderíamos dizer que sua fé é um acréscimo, não algo nuclear que anima seu viver diário.
Quantas vezes a vida dos cristãos fica como que cortada em duas. Agem, organizam-se e vivem como todos os outros ao longo dos dias, e no domingo dedicam um certo tempo para prestar culto a um Deus que está ausente de suas vidas no resto da semana.
Cristãos que se desdobram e mudam de personalidade, segundo se ajoelhem para rezar a Deus ou se entreguem a suas ocupações diárias. Deus não penetra em sua vida familiar, em seu trabalho, em suas relações sociais, em seus projetos ou interesses. Desta forma, a fé se converte num costume, num reflexo, num “relaxamento semanal”, como diria Jean Onimus, e, em qualquer caso, numa prudente medida de segurança para esse futuro que talvez exista depois da morte.
Todos nós devemos perguntar-nos com sinceridade o que significa realmente Deus em nosso viver cotidiano. O que se opõe à verdadeira fé não é muitas vezes a incredulidade, mas a falta de coerência.
O que importa o credo que nossos lábios pronunciam, se falta depois em nossa vida um mínimo esforço de seguimento sincero de Jesus? O que importa – diz-nos Jesus em sua parábola – que um filho diga a seu pai que vai trabalhar na vinha, se depois na realidade não o faz? As palavras, por mais belas que sejam, não deixam de ser palavras.
Não reduzimos muitas vezes nossa fé a palavras, ideias ou sentimentos? Não esquecemos quase sempre que a fé verdadeira deve dar um significado novo e uma orientação diferente a todo o comportamento da pessoa? Nós cristãos não deveríamos ignorar que, na realidade, não cremos o que dizemos com os lábios, mas o que expressamos com nossa vida inteira.
JOSÉ ANTONIO PAGOLAcursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.
Leão XIV se fez
peregrino na Gruta das Aparições, repetindo os ritos dos fiéis. Deteve-se em
oração silenciosa diante da imagem da Virgem Maria; aproximou-se da rocha e a
tocou. Na sequência, o Papa bebeu um copo de água da fonte e após colocar uma
vela no candelabro, pronunciou uma prece.
Na noite deste
sábado, o Papa Leão viveu um dos momentos mais aguardados de sua viagem à
França: a oração na Gruta das Aparições de Massabielle.
No mundo,
Lourdes é a cidade mariana por excelência. Desde 1858, é destino de
peregrinação: em um nicho no interior da Gruta, a Virgem Maria apareceu a uma
pastora chamada Bernadette Soubirous. Após a primeira aparição (11 de
fevereiro) da “Senhora vestida de branco”, seguiram-se outras 17, até 16 de
julho de 1858.
Ao longo dos
anos, a Gruta passou por diversas intervenções, que, em parte, alteraram seu
aspecto, a fim de torná-la mais acessível aos peregrinos, enquanto acima dela
foi construída a Basílica da Imaculada Conceição. No seu interior se encontra
uma estátua representando a Imaculada Conceição, obra de 1864 do escultor
Joseph-Hugues Fabisch. É adornado com um altar de pedra e um grande candelabro,
e é costume dos peregrinos tocar a rocha ao longo de toda a cavidade.
Dentro da Gruta,
protegida por uma placa de vidro, encontra-se a fonte descoberta pela própria
Bernadette no local em que Nossa Senhora lhe pediu para cavar: trata-se de uma
das oito fontes da região que alimentam o rio, e suas águas são bebidas pelos
peregrinos e utilizadas para o banho nas piscinas situadas a pouca distância, à
disposição dos doentes e dos fiéis, como sinal da renovação do batismo e da
purificação; sob a cavidade, um cofre de metal permite coletar orações e
intenções.
O Papa em oração
(@Vatican Media)
A oração do
Santo Padre
Ao chegar à
Gruta das Aparições, o Pontífice foi recebido pelo Bispo de Tarbes e Lourdes,
Dom Jean-Marc Micas, e pelo Reitor do Santuário, Padre Michel Daubanes.
Leão XIV se
deteve em oração silenciosa diante da estátua da Virgem Maria; aproximou-se da
rocha e a tocou. Na sequência, o Papa bebeu um copo de água da Fonte que lhe
foi oferecido pelo Reitor do Santuário. Após colocar uma vela no candelabro,
pronunciou a seguinte oração:
Ó Senhora de
Lourdes, Imaculada Conceição, recorremos a Vós com confiança neste lugar
abençoado onde, com tanta doçura e ternura, falastes a Santa Bernadette,
humilde filha do povo de França, para transmitir ao mundo uma luminosa mensagem
de oração, conversão e esperança; Vós sois a Mãe que Jesus nos deu e estais
atenta às nossas necessidades.
Rogamos-vos,
Senhora Nossa, pela França, de quem sois a Padroeira e a quem, ao longo de
tantos séculos, envolvestes com a Vossa proteção. Alcançai para o vosso povo o
dom da concórdia fraterna. Que ele construa uma sociedade harmoniosa, banindo
toda a violência e todo o ódio, permitindo a cada um trabalhar, constituir a
própria família e viver até ao fim com tranquilidade e serenidade. Que os mais
desafortunados e os mais pobres sejam sempre apoiados. Alcançai para a França
governantes sábios e generosos, dispostos ao sacrifício de si mesmos, capazes
de enfrentar os desafios e desejosos de servir o bem comum. Que eles a
mantenham em paz no concerto das nações. Que façam ouvir a sua voz para
promover a defesa dos direitos humanos fundamentais, bem como a paz no mundo,
rejeitando para sempre as lógicas da guerra.
Santa Virgem
Maria, apresentamos-vos o Povo de Deus que caminha neste país que tanto
marcastes com a vossa proximidade. Renovai a fé e o fervor das famílias
cristãs, tão queridas ao vosso coração, para que vivam dia após dia a partir da
presença de Jesus, da sua graça e do seu amparo nas dificuldades que
atravessam. Que estejam generosamente abertas à vida, e que Deus suscite nelas
vocações, nomeadamente sacerdotais e religiosas. Concedei à vossa Igreja em
França a capacidade de indicar, sobretudo aos mais jovens, o caminho luminoso
do Evangelho para edificarem a sociedade justa e fraterna a que aspiram.
Por fim, Mãe
amorosíssima, apresentamos-vos as nossas intenções pessoais mais urgentes, em
particular as das pessoas doentes e sofredoras, com os acompanhantes, que em
conjunto vieram buscar força e cura. Confiamos-vos os nossos entes queridos e
os nossos falecidos. Afastai, nós vos suplicamos, todos os obstáculos que ainda
nos separam do vosso amado Filho, e fazei que Ele reine em todos os corações.
Amém.
Antes de
encerrar este momento, o Pontífice entregou uma Rosa de Ouro, rezou o Pai-Nosso
e concedeu a bênção apostólica. No domingo, Leão XIV presidirá no Santuário à
Santa Missa.
Nós, cristãos, temos o privilégio de dispor de um outro método, relativamente à mundanidade, para nos avizinharmos da verdade: o arrependimento. (Christos Yannaras)
♦ Um sim que, na realidade pode ser não, ou um não que venha transformar-se em sim. Mais uma parábola. A dos dois filhos. Um diz que faz as obras do Senhor. Mas não faz. O outro, diz que não, mas volta atrás e faz. O sentido da parábola de Jesus parece claro. No seguimento de Jesus, na construção do Reino há pessoas que dizem sim. Aparentemente vivem dentro dos bons padrões. E de outro lado há os que dizem não. Tudo claro até aqui. Há, no entanto, uma sorte de inversão. Os bons parece que colocaram em si uma etiqueta de bondade, mas que, na realidade esconde um pedaço de inverdade. Consideram-se justos, mas falta-lhes o fogo interior e sua fidelidade tem tudo do legalismo. Dizem que vão, mas não vão. Estão satisfeitos com o mundinho que criaram com tintas de religiosidade. Os que disseram não se arrependem e com ardor transformam o não em sim. Mudam de ideia. Arrependem-se. Convertem-se.
♦ De maneira clara Manicardi aborda nosso tema: “Naquele ‘mudar de ideia’ está o diálogo interior, está a tomada de consciência da realidade, está a audácia de olhar de frente para si próprio, um passo preliminar essencial para o agir responsável. Em suma, está um movimento em direção à responsabilidade, da decisão de passar a irresponsabilidade para a responsabilidade. Nesse sentido, longe de ser um sinal de fraqueza, o arrependimento é sinal de coragem e força. Embora seja raro e impopular, mesmo na Igreja, o gesto de quem reconhece ter errado, de quem admite ter tomado posições que se revelaram pouco conformes com o Evangelho e muda a sua posição, procurando ser mais fiel ao Evangelho, é sinal e grandeza humana e espiritual” (Luciano Manicardi, Comentário à Liturgia Dominical e Festiva, Ano A, Paulinas de Portugal, p.144).
♦ A vida, muitas vezes, é um madrasta desalmada. Acrescentei o adjetivo desalmada porque imagino que existam madrastas com alma. Há pessoas que, na realidade tiveram uma trajetória extremamente acidentada. Um certo mocinho cresceu num ambiente em que pessoas de seu relacionamento assaltavam e ele mesmo passou ser “sócio” do crime. Um mocinha bonita, jeitosa começa a se interessar por aventuras amorosas e receber recompensas e compensações, menina que nunca fora valorizada. Pessoas que pouco visitaram seu interior. Nunca questionaram o que vem a ser voz da consciência. Por um ou outro caminho foram tocadas. A moça sonhava com um companheiro único e a formação de uma família. O rapaz depois de cumprir um tempo de prisão, olhando-se no espelho queria ser diferente. Nessas e em tantas vidas pode irromper Cristo, sobretudo através do testemunho de pessoas que se tornaram evangelho vivo. Os que haviam dito não, disseram um sim cheio de ardor.
♦ Jesus se aproxima dos mais discriminados. Senta-se para comer com publicanos. Deixa que uma pecadora beije seus pés. É conhecido como amigo dos pecadores. Quem suspeita hoje realmente que os bêbados, os mendigos e todos os que formam o refugo, a escória da sociedade podem ser os primeiros do Reino? Quem podia imaginar que os aidéticos, dependentes de drogas poderiam preceder a alguns figurões da religião… (cf. Pagola, Mateus, p. 250.)
♦ A graça do arrependimento. Sim, trata-se de uma graça. Ter-se acostumado a usufruir das coisas e dos bens para si. Ter lucrado percorrendo os caminhos da noite. Ter usado o corpo dos outros…Todas essas páginas escuras. Arrepender-se quer dizer experimentar dor pelo que se cometeu, sobretudo de termos machucado aos outros, a nós mesmos e termos descuidado de responder ao amor do Senhor.
♦ O coração contrito é a única brecha por onde Deus pode entrar numa vida. Uma vida “acostumada” com as coisas da fé é impermeável a Deus e ao seu alvissareiro convite. O homem pode desviar o seu caminho, da primeira orientação de vida. O homem vive longe de seu ser verdadeiro. O coração contrito é um coração deslumbrado pela beleza e misericórdia de Deus. O coração contrito deixa Deus ser Deus. Éloi Leclerc: “O coração contrito é uma brecha íntima por onde pode entrar ainda qualquer coisa nova. É uma abertura ao Deus vivo e imprevisível; o Deus que vem”.
FREI ALMIR GUIMARÃES, OFM, ingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.